* Com informações da Agência Brasil
Eduardo Galeano, falecido nesta segunda-feira aos 74 anos de idade em Montevidéu, era um jornalista, cronista e escritor uruguaio, um contador de histórias que se tornou referência intelectual para a esquerda, especialmente, com sua obra "As Veias Abertas da América Latina".
O escritor, cuja educação formal não passou do primeiro ano do Ensino Médio, afirmou ter aprendido a arte de contar histórias nos antigos cafés de Montevidéu, dos quais era um cliente assíduo. "Eu tive a sorte de conhecer Scheherazade; não aprendi a arte de contar histórias nos palácios de Bagdá, minhas universidades foram os antigos cafés de Montevidéu; os contadores de histórias anônimos me ensinaram o que eu sei", disse o autor em outubro de 2009, em Madri.
"Nos cafés descobri que o passado estava presente e que a memória poderia ser contada de forma a deixar de ser ontem para tornar-se agora", acrescentou o mágico das palavras, que cativou com suas letras e sua voz.
Galeano começou sua carreira de jornalista aos 14 anos, quando publicou sua primeira caricatura no jornal El Sol, do Partido Socialista do Uruguai, sob a assinatura de "Gius", onomatopeia irônica de seu sobrenome de origem galesa.
Entre 1961 e 1964 ele foi editor da prestigiada revista Marcha, dirigida por Carlos Quijano e que era reduto de intelectuais latino-americanos, para qual também escrevia Mario Benedetti. Em seguida, foi diretor do jornal independente de esquerda Época (1964-1966).
"Vagamundo" (1973) e "La canción de nosotros" (1975), que lhe rendeu o prêmio Casa das Américas confirmaram suas habilidades como narrador, misturando uma história social com mitos e lendas, ficção e testemunhos.
Com a instauração da ditadura em 1973 no Uruguai, Galeano, vinculado a correntes marxistas, exilou-se na Argentina, onde fundou e dirigiu a revista literária Crisis. Dois anos mais tarde mudou-se para Espanha, onde escreveu para publicações deste país e colaborou com meios de comunicação na Alemanha e no México.
Na trilogia "Memória do fogo" (I - Os nascimentos, 1982, II - As caras e as máscaras, 1984, e III - O século do vento, 1986), Galeano revive o passado indigenista latino-americano, onde a história passada e o presente se entrelaçam, em relatos breves de uma potência sem par.
Com o retorno à democracia em 1985, Galeano regressou ao Uruguai, onde residiu desde então e manteve uma prolífica produção. Em 1989 editou "O livro dos abraços", que o próprio autor definiu como "um livro sobre os vínculos com os demais". Seguiram coleções de crônicas e artigos, e até mesmo um livro sobre o futebol, esporte que era fanático: "O Futebol ao Sol e à Sombra" (1995).
Fiel a sua política, continuou a publicar histórias de povos indígenas, da luta pelos recursos naturais e questionamentos sobre a guerra no Iraque, os Estados Unidos, os grandes bancos ou multinacionais.
As Veias Abertas da América Latina
Em 1971, Galeano publica sua obra mais conhecida, As Veias Abertas da América Latina, que se torna referência para compreensão das mazelas do Continente.
"Nossa derrota esteve sempre implícita na vitória alheia. Nossa riqueza gerou sempre nossa pobreza para alimentar a prosperidade dos outros: os impérios e seus agentes nativos. [.] o bem-estar de nossas classes dominantes - dominantes para dentro, dominados para fora - é a maldição de nossas multidões, condenadas a uma vida de bestas de carga".
Clássico entre os intelectuais da esquerda latino-americana, o livro analisa a América Latina desde sua origem. Na obra, Eduardo Galeano explica como a riqueza e fartura de toda uma região tornou-se sua ruína.
O escritor denuncia a opressão e amargura do continente. Traduzido para mais de 20 idiomas, o livro tenta - de acordo com as palavras do próprio Galeano - "explorar a história para impulsionar a fazê-la".
Esse livro foi o presente dado pelo já falecido presidente da Venezuela Hugo Chávez ao presidente americano Barack Obama na Cúpula das Américas de 2009, em Trinidad Tobago, um gesto que voltou a estimular as vendas da obra.
Mas, com uma amostra de autocrítica pouco comum, Galeano comentou há um ano numa coletiva de imprensa em Brasília que "não seria capaz de lê-lo novamente. Cairia dormindo. Para mim, essa prosa da esquerda tradicional é chatíssima. Meu físico não aguenta mais. Teria que ser internado no hospital".
Prêmios
Ganhou o Prêmio Casa das Americas duas vezes (em 1975 e 1978) e sua trilogia "Memória do fogo" recebeu o American Book Award de 1989, uma distinção atribuída pela Universidade de Washington. Em 1999 ganhou o prêmio à Liberdade Cultural, da Lannan Foundation. Em 2001, recebeu o título de Doutor Honoris Causa, concedido pela Universidade de Havana, de Cuba. Em 2010, recebeu o prêmio sueco Stig-Dagerman por "sua escrita que apoia inabalavelmente todos aqueles que são marginalizados e condenados".
Veja a entrevista concedida pelo escritor uruguaio, em 2013, ao comentarista político da TV Brasil, Emir Sader:
Galeano se tornou referência intelectual para a esquerda
Escritor uruguaio morreu em Montevidéu aos 74 anos