Numa entrevista por telefone, de Paris, Celine disse que rotulá-la como cineasta gay é reducionismo. "Não sou Laure nem Michael, mas é evidente que muita coisa no filme faz parte das minhas lembranças de infância. A relação com a irmã, essa sim é inteiramente baseada no relacionamento que tive com minha irmã. Cheguei a reproduzir diálogos, claro que com o filtro da memória."
Laure é uma transexual? "Tenho minha ideia sobre ela e poderia dizer o que acredito em que ela se transformará, mas não é importante para o conflito que retrato. Zoe Héran, que faz o papel, é uma menina muito precoce. Conversamos sobre isso porque era necessário que ela entendesse as implicações da personagem. Para ela, trata-se de uma fase. Foi assim que entendeu, e não teve problemas em seguir em frente, naturalmente que assistida por sua família. A mãe permaneceu o tempo todo no set."
Se não tivesse encontrado a atriz certa, Céline admite que não teria realizado o filme. A menina tem uma cena de nudez – no banho. Céline não teve medo de ser acusada de abuso infantil? "Isso é coisa dos norte-americanos, obcecados com o politicamente correto. Ela esteve o tempo todo protegida, por nós e sua família."
A menina cortou o cabelo, adotou atitudes masculinas, mas o que a tornou atraente para a diretora é que já jogava futebol e tinha uma maneira muito natural de se colocar à vontade perante os meninos. Para facilitar a rodagem, os amigos de Laure/Michael são os amigos de Zoe na vida. Céline filmou com uma Cannon 7-D. "É uma câmera barata, muito leve, mas que reproduz a qualidade da imagem de cinema. Sua escolha foi uma decisão estética", informa. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.