A trilha composta pelo compositor e músico Lenine em “Triz” desenha uma topografia musical recortada por subversões rítmicas, a partir de um único motivo condutor e utilizando somente instrumentos de corda. Numa obra em que a ocupação do espaço reflete a intermitência e a dubiedade, o coreógrafo Rodrigo Pederneiras constrói uma partitura de movimentos marcada pela presença recorrente de trios. E abre espaço para uma série de duos femininos, como lenitivo e respiradouro necessários à execução dos movimentos. Uma cerca de cabo de aço ergue uma arquitetura cênica que remete às cordas musicais, mas também à limitação.
O espetáculo “Onqotô”, que apresenta uma trilha sonora de Caetano Veloso e José Miguel Wisnik, tem como ponto de partida uma bem-humorada discussão sobre a “paternidade” do universo. De um lado, está a teoria do big-bang e, de outro, a existência de uma máxima espirituosa formulada pelo dramaturgo Nelson Rodrigues sobre o clássico maior do futebol carioca, segundo a qual se poderia inferir que o cosmos teria sido “concebido” sob o signo indelével da brasilidade. Os nove temas musicais da montagem estabelecem diálogos rítmicos, melódicos e intertextuais.
Nessa coreografia, criada também por Rodrigo Pederneiras, a verticalidade e a horizontalidade, o caos e a ordenação, a brusquidez e a brandura, o volume e a escassez se contrapõem e se superpõem, em consonância com a trilha sonora que está sendo executada no espetáculo. Construída com a junção de uma série de tiras de borracha que possuem cor de grafite, a cenografia acaba por fundar um espaço cênico côncavo que sugere tanto um recorte do globo terrestre, quanto um buraco negro.