São sete canções, datadas do século XIII, que surgem como testemunho mais antigo e estão entre as mais apreciadas sobreviventes de uma das vertentes da tradição trovadoresca da região na época: as chamadas "cantigas de amigo". Nelas, o poeta se pronuncia sempre em nome da mulher; mais especificamente de jovens apaixonadas que pranteiam a ausência ou festejam a iminência do regresso do amado-amigo. A lírica do trovador medieval viguês é a inspiração para Rodrigo Pederneiras pautar sua elaboração de movimentos, que se alternam entre calmaria e fúria e no vaivém próprios das ondas do mar. Destaque, ainda para a (re)produção, no jogo de cena, do apartamento entre feminino e masculino, onde um(a) reclama sempre a falta do outro.
Na primeira parte do programa será apresentada "Benguelê", de 1998, exaltação ao passado africano e às suas raízes na cultura brasileira. A música foi especialmente composta por João Bosco, fazendo com que o espetáculo ganhe uma força criativa ainda mais intensa. É o momento em que se introduz na dança contemporânea, apresentada pelo grupo, sequências de capoeira e gestos das danças de festas de São João e dos Congados. A coreografia de Rodrigo Pederneiras dá intensidade ao Banzo de Benguela, uma das possíveis origens etimológicas da palavra benguelê: "Saudade das terras livres e férteis do longínquo reino africano". São pouco mais que 40 minutos e 11 temas criados por Bosco.