Arte & Agenda

Guilherme Weber retorna aos palcos de Porto Alegre

"Ah, a Humanidade! E Outras Boas Intenções" está no Theatro São Pedro

Guilherme Weber assina concepção, que divide com Murilo Hauser e encabeça elenco do espetáculo
Guilherme Weber assina concepção, que divide com Murilo Hauser e encabeça elenco do espetáculo Foto : Poa Em Cena / Divulgaçã o/ CP
Feliz por vir mais uma vez ao Porto Alegre em Cena e se apresentar em seu palco favorito, Guilherme Weber traz à 20ª edição do festival "Ah, a Humanidade! E Outras Boas Intenções" ao Theatro São Pedro neste sábado, 21h, domingo, às 18h e segunda-feira, a partir das 21h.

Autor do projeto do espetáculo, junto com Murilo Hauser, a quem ficou a cargo a direção e tradução, o ator - que fundou há 20 anos a Cia. Sutil com Filipe Hirsch, em Curitiba - atua ao lado de Renata Hardy, Celso Frateschi, Érica Migon e Fábio Mazzoni, no texto de Will Eno, com 1h10min de duração. Confira abaixo detalhes, na entrevista:

Correio do Povo - Quando estreiou o espetáculo e qual foi sua trajetória?
Guilherme Weber - O espetáculo estreeou no Rio de Janeiro em fevereiro/março deste ano e cumpriu temporada no Teatro Laura Alvim, no Rio de Janeiro. Depois, temporada paulista no Sesc Anchieta. Porto Alegre e o festival é a primeira parada de uma tournée que deve se estender por Belo Horizonte e o circuito do interior de São Paulo.

CP - Como tem sido a tua parceria com o diretor Murilo Hauser, que completa completa dez anos e com o dramaturgo Will Eno? O que o motivou a montar este texto especificamente?
GW - O diretor Murilo Hauser, que começou sua trajetória aos quinze anos como ouvinte dos ensaios da Sutil Cia. e atuou como diretor assistente por dez anos consecutivos dentro da companhia. Com o Will Eno é uma parceria que começou em 2004 com a montagem da primeira versão de “Temporada de Gripe”, pela Sutil Companhia. O montamos no Brasil antes mesmo dele ser encenado em Nova Iorque. Will Eno é hoje o dramaturgo contemporâneo com o qual eu mais me identifico e o qual eu mais admiro. Minha parceria com ele se estendeu com as montagens de “Thom Pain/Lady Grey”, a nova versão de “Temporada de Gripe”, nos quais atuei sob a direção de Felipe Hirsch e agora este “Ah, Humanidade…” E para o ano que vem tenho o projeto de dirigir seu texto mais recente, “A Pequena Cidade.” Acredito ser o ator que mais representou Will Eno no mundo, e este pequeno título me enche de orgulho. “Ah, Humanidade…” além de prolongar este projeto informal, traz uma nova ótica do tema principal da obra de Eno que é a falência de comunicação. Aqui, os personagens rompem códigos específicos de narrativa, dentro de pequenos dramas. É um olhar mais intimista dele sobre seu tema de preferência.

CP - A crítica teatral Bárbara Heliodora falou que o texto não nos atinge com força, por pertencer a uma realidade norte-americana, com exceção de uma história, a do homem e mulher em busca de sua cara-metade. Até que ponto isto é verdade? Você concorda com isto?
GW - Não concordo de maneira alguma. Primeiro acho terrível as pessoas, especialmente os críticos, que ficam “olhando bandeirinhas” para saber previamente se podem se sentir representadas ou não. Me parece um preconceito alinhado a uma espécie de reserva de mercado que beira o fascismo. E não é desta maneira que se incentiva a produção contemporânea de dramaturgia nacional. Dito isto, acho que toda a obra de Eno é absolutamente arquetípica e fala destes temas de maneira original, mas muito ampla. Amor, morte, infância, memória, linguagem, são destes universos que o complexo conjunto de peças dele se forma. Por estranha coincidência, acredito que no Brasil estas peças ecoam, em alguns momentos, de maneira muito mais forte do que em qualquer outro lugar. Os bastidores do futebol estão gravados no DNA dos brasileiros e ver um técnico, um treinador diante de jornalistas, é um lugar de nossa maior intimidade. Assim como observar a funcionária constrangida e devastada de uma companhia aérea falando aos parentes das vítimas de um desastre aéreo. Infelizmente nosso passado recente de sediar os piores desastres aéreos da história da humanidade não nos deixa distância.

CP - O espetáculo quebra protocolos?
GW - Os personagens quebram protocolos. É disto que o espetáculo se trata também, mostrar algumas pessoas quebrando os códigos estabelecidos, ferindo narrativas.

CP - A mensagem de Eno é, de certa forma, pessimista ou não, ao mostrar o desamparo humano e caos deste mundo?
GW - Acredito ser ele um humanista. Tem fé na espécie humana, seus personagens mesmo fracassando continuam e ecoam o mantra de Beckett: “Fracassar, fracassar de novo, fracassar melhor.”

CP - O público é um personagem, na medida em que as histórias são conduzidas como se fossem coletivas de imprensa?
GW - Sim. Ao longo do espetáculo o papel da audiência se altera com diferentes receptividades. Nas cinco peças curtas que formam o programa de “Ah, Humanidade…” o público tem diferentes focos. Na primeira são jornalistas de uma coletiva. Na segunda são lentes de uma câmera, na terceira são os parentes de vítimas de um acidente aéreo, na quarta são o coletivo que irá posar para uma fotografia e na quinta e última tem uma presença que representa o próprio teatro. Mas isto acontece de maneira orgânica, sutil e sem interatividade.

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