Willem Dafoe deixa a sala de convenções de um hotel nos Jardins, em São Paulo, com os braços cruzados, aquecendo-se como pode. Está tão isolado e solitário quanto o seu personagem Diego Fairman em "Meu Amigo Hindu", mais novo filme de Hector Babenco, diretor argentino-brasileiro, que busca em situações vividas por ele mesmo, como a batalha que travou contra o câncer, a narrativa para a trajetória do protagonista de Dafoe. O longa já está em cartaz nos principais cinemas de Porto Alegre.
"Está um frio de congelar ali dentro", aponta o ator, que mesmo com uma jaqueta de couro, foi incapaz de se manter aquecido no cômodo ao lado. Dafoe conhece Babenco desde os anos 1980 e já tentaram trabalhar juntos em diferentes oportunidades, mas foi somente quando o ator esteve em São Paulo com a peça "A Velha", em 2014, que conseguiram conversar. Dafoe informou suas datas disponíveis e "Meu Amigo Hindu" entrou em produção.
Diego, de personalidade difícil, afasta todos ao seu redor. A mulher, a mãe, os irmãos, os amigos. Recebe a sentença de morte (o câncer é de difícil tratamento) logo no início do longa. Passa-se o resto dos minutos em tela com a presença da morte, de forma literal ou não. Literal quando surge Selton Mello, como a figura que personifica a figura da morte, embora pareça mais com um funcionário público entediado do que um ceifador de almas assustador.
São evidentes as semelhanças entre a história de Diego, o personagem, e Hector, o diretor. O ofício (de diretor), a batalha contra uma doença (o câncer). Não se trata de uma obra inteiramente autobiográfica, contudo. Babenco concorda. "Não há nada da história da arte que não seja autobiográfico", pontua o diretor argentino-brasileiro. "A sofisticação da arte é buscar o único. Você não trabalha com um material que não conhece." Ele conclui o pensamento, algum tempo depois: "Esse filme, para mim, representa a reinvenção da experiência. É uma reconstrução das paredes que existiam e foram demolidas".
A consequência de estar diante de uma história tão pessoal afetou, de uma maneira ou de outra, os atores do elenco, como Dafoe e Maria Fernanda Cândido, responsável por dar vida a Livia, mulher de Diego. "Perguntei ao Hector se a Lívia era baseada em alguma mulher dele, se eu precisava pesquisar algo", conta a atriz. "E ele me disse que se tratava de um mosaico. Nenhuma delas é a Lívia de forma inteira. Ele queria que eu fizesse a minha versão dela." Dafoe conhecia a história de Babenco.
O diretor entregou-lhe o roteiro sem pistas e pediu apenas que ele o lesse. "Quando li, pensei: 'Uau, isso me parece familiar.' Mas eu gostei. Achei cinemático", conta o protagonista. "Sabia que era pessoal, sabia que algumas coisas eram inventadas e outras eram muito próximas do que aconteceu. É claro que, ao ler o roteiro, às vezes, você pode ter uma dúvida ou outra. Daí, você pergunta: 'A sua mulher realmente disse isso?'.
Às vezes, ele me contava a história real do que aconteceu. Às vezes, dizia que tudo era uma invenção enorme. Mas não iria perguntar para ele se a Bárbara (Paz, esposa do diretor e mulher que entra na vida de Diego no fim do filme) realmente dançou pelada debaixo da chuva? Qual é a diferença?" Trata-se, afinal, de um filme sobre a morte? Ou sobre a constante presença dela? Um filme sobre a vida? "Você nunca sabe o que vai acontecer depois, no dia seguinte ao fim do filme", explica Hector Babenco. Dafoe e Maria Fernanda fazem coro pela interpretação desse como um filme sobre a vida - ou sobre a sobrevivência.
Momentos mais lúdicos do longa, de qualquer maneira, são nas conversas nonsense de Diego e a morte, ou o funcionário dela. Jogam xadrez (numa referência a O Sétimo Selo, de Ingmar Bergman), falam bobagens. No fim de cada uma das três entrevistas, atores e diretores foram questionados sobre o que perguntariam à figura da morte, se a vissem. Dafoe brinca, queria saber se no além haveria ar condicionado. "Eu detesto", ele diz. Maria Fernanda pensa, pensa, e chega à conclusão: "Queria saber se a gente ainda sentiria o gosto das coisas". Babenco, por sua vez, ganha deles. Desbocado, diz: "Que vá para a p... que o pariu. E pare de me encher o saco!".
Assista ao trailer:
Hector Babenco une cenas autobiográficas e ficção em "Meu Amigo Hindu"
Filme está em cartaz nas telonas do país