Em fevereiro de 2022, a dançarina americana Melanie Wilking entrou ao vivo no Instagram com seus pais, abalada. Na live, diziam estar há mais de um ano sem contato com a irmã, Miranda, que completaria 25 anos naquela data. A jovem teria sido cooptada por uma organização religiosa e não estava mais no controle de sua própria vida - presa em uma espécie de culto. O drama dos Wilking é ponto de partida de “Dançando para o Diabo”, série documental que estreia na Netflix nesta quarta-feira, 29. A produção investiga a relação entre jovens dançarinos de sucesso no TikTok e a empresa de gerenciamento de talentos 7M Films, ligada à igreja cristã Shekinah Church, em Los Angeles, Estados Unidos. À frente de ambas está Robert Shinn. A série documental parte do relato dos Walking, mas ganha força com a participação de ex-membros da 7M, que deixaram a organização. Miranda e Melanie Walking cresceram dançando juntas.
As irmãs se mudaram para a Califórnia para seguir a carreira artística e, graças à ascensão do TikTok no país, ganharam visibilidade - e milhões de seguidores. Miranda se afastou quando Melanie não quis entrar para a igreja. Ela ainda permanece atrelada à 7M, junto de seu agora esposo, James BDash Derrick. A manipulação psicológica de Shinn, explicam os dançarinos na série, começa em seus sermões, durante os quais designa a si mesmo como o 'homem de Deus', capaz de salvar os fiéis do inferno. Shinn prega que seus seguidores cortem contato com os familiares e pessoas queridas, como forma de salvarem-se da condenação eterna. O abuso também é financeiro: Shinn exige que a maior parte da renda conquistada com o sucesso na internet seja entregue como dízimo. Paralelamente, Dançando para o Diabo traz a história de outras duas irmãs, testemunhas do passado da Shekinah Church, bem antes das dancinhas do TikTok. Melanie e Priscylla Lee entraram para a igreja em 1999, enquanto duas jovens imigrantes desamparadas. Acolhidas pela organização de Shinn, que costumava atender sobretudo à comunidade de coreanos-americanos, passaram a depender dele para ter onde morar. Ambas afirmam ter sofrido agressões sexuais regulares por parte de Shinn. Em 2011, Melanie se despediu da igreja. Priscylla ficou, só deixando a instituição durante a produção do documentário, a tempo de contribuir com sua versão. Mais de uma década separadas, as irmãs Lee tentam uma reconexão. Em 2022, a 7M Films divulgou um comunicado afirmando operar separadamente à igreja Shekinah. No mesmo ano, Shinn entrou com uma ação contra vários ex-membros, alegando ter sido difamado por 'declarações falsas' de culto, que teriam motivado campanhas de 'cancelamento' nas redes sociais.
Em resposta, os ex-membros resolveram processar Shinn, sua esposa e outros indivíduos afiliados aos negócios da família. As denúncias alegam fraude, trabalho forçado, tráfico de pessoas e agressão sexual. O caso vai a julgamento em julho de 2025 em Los Angeles. Apesar disso, até o momento, nenhuma acusação criminal formal foi apresentada contra Shinn. Miranda e Derrick já se pronunciaram em suas redes sociais sobre as alegações, negando estarem participando em um culto religioso.