Arte & Agenda

Histórias de esplendor e decadência da Itália seduzem em Cannes

"La Grande Belleza" e "Un Castillo en Italia" foram exibidos nesta terça no Festival

Paolo Sorrentino retrata Roma pós-Berlusconi em seu filme
Paolo Sorrentino retrata Roma pós-Berlusconi em seu filme Foto : Alberto Pizzoli/AFP/CP
O esplendor e a decadência como apenas o cinema italiano sabe contar, sem perder o senso de humor, encontraram-se nesta terça-feira no Festival de Cannes com "La Grande Bellezza" e "Un castillo en Italia", na disputa pela Palma de Ouro. Com imagens deslumbrantes da Cidade Eterna, "La Grande Bellezza" de Paolo Sorrentino, tem Roma no esplendor do verão como coprotagonista onipresente.

Interpretado por seu ator-fetiche Tony Servillo ("Il Divo", 2008, também dirigido por Sorrentino), Jep é um escritor veterano e de sucesso com as mulheres que se dedica à vida mundana mais do que à literatura. Comparece a todas as festas e organiza outras em seu apartamento com uma vista magnífica para o Coliseu. Tem do mundo que o cerca e de sua comédia a visão lúcida e cínica de um privilegiado. Ele se questiona se voltará a escrever sobre um amor de juventude, imerso na atmosfera romana, cuja beleza pode ser paralisante.

Felini e o clássico "La Dolce Vita" (1960) são lembrados em todos os momentos nesta homenagem explícita ao mestre italiano. "Falamos de temas parecidos, há uma ressonância", admitiu Sorrentino. Mas rejeitou qualquer comparação "porque 'La Dolce Vita' é uma obra-prima".

Em "La Grande Bellezza" há uma ausência flagrante, talvez deliberada, de fio narrativo sólido, compensada com as imagens espetaculares de Roma captadas pelo diretor de fotografia Luca Bigazzi. Mas a Itália pós-Berlusconi soa inevitavelmente mais vulgar e vã do que a de Fellini e Mastroianni. "O filme tenta expressar, e não narrar, uma certa pobreza - explicou Sorrentino à imprensa -, mas não uma pobreza material, e sim uma pobreza de outro tipo".

"Un castillo en Italia", é uma emotiva comédia familiar com momentos de tragédia, narrada com o olhar terno da diretora franco-italiana Valeria Bruni-Tedeschi, que passou da atuação para a direção no início de 2000 e que agora faz ambas: dirige e interpreta Louise, a protagonista. O esplendor perdido dos Rossi-Levi, uma família de industriais do norte da Itália, é apenas o marco da trama. O tema aqui é a mesma família, especialmente as relações entre irmão e irmã, mãe e filha. A história de amor da protagonista com final feliz é quase um acessório narrativo.

Marisa Borini é sua mãe na vida real e no filme. Embora não se trate de uma "autoficção", como indica a diretora, o roteiro é amplamente inspirado pela história familiar. "Uma autobiografia sempre é uma ficção", ironizou nesta terça à imprensa Agnes de Sacy, co-roteirista ao lado de Bruni-Tedeschi e Noemie Lvovsky.

Há também na atmosfera reminiscências dos grandes do cinema italiano, neste caso "O Jardim dos Finzi Contini" (1970). O roteiro tem como inspiração clara o filme de Vittorio de Sica quando Ludovic (Filippo Timi), irmão de Louise doente com Aids, recorda-se apenas de uma partida de tênis em uma quadra coberta de neve. Os Rossi-Levi vivem boa parte do tempo em Paris e têm dificuldades para pagar as contas da casa da família. Louise (Valeria) tem 43 anos, "não tem marido, nem filhos, nem trabalho", segundo as reclamações de sua mãe.


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