O que Pyongyang parece não entender é que a irritação do regime praticamente vai garantir o primeiro lugar na bilheteria para "A Entrevista", que estreia nos cinemas dos Estados Unidos em 25 de dezembro e 29 de janeiro no
Brasil.
Protestos que geram dinheiro
"Sem dúvida, a Sony não fica incomodada que um país denuncie publicamente o filme", afirma Jeff Bock, da empresa especializada em bilheteria Exhibitor Relations. "Os boatos e as especulações aumentarão definitivamente o interesse do público. As pessoas querem entender o alvoroço", completa.
O filme conta a história do apresentador de um programa de TV, Dave Skylark (Franco), e seu produtor (Rogen), que têm a possibilidade de entrevistar o ditador do país mais fechado do mundo, que no filme é um grande fã do
programa sensacionalista do jornalista. Mas a CIA, por meio de uma agente sexy, Lacy (interpretada por Lizzy Caplan), convence a dupla a assassinar Kim Kong-un com uma dose de ricina, aproveitando o acesso ao líder norte-coreano.
Tudo vai bem até que a dupla chega a Pyongyang e Skylark sai para uma noite de farra com Kim, durante a qual conversam sobre basquete e fazem piadas sobre gays e as canções de Katy Perry. O personagem de Franco decide que não pode matar o novo amigo, o que provocará muitas dores de cabeça e terminará com Kim irritado.
Dennis Rodman e uma amizade estranha A reação da Coreia do Norte antes da estreia lembra o que aconteceu com o governo do Cazaquistão em 2006 e o filme "Borat", no qual o humorista Sacha Baron Cohen faz piadas com o suposto atraso desta república da Ásia central. Ao criticar o filme, as autoridades do Cazaquistão ajudaram o filme na bilheteria. Depois, perceberam o "erro" e "aceitaram" o resultado. Mas nada leva a crer que a Coreia do Norte vai lidar de maneira leve com as críticas do filme.
O regime comunista se mostra implacável quando alguém ousa fazer piadas com qualquer integrante da dinastia Kim.
Em abril, dois funcionários da embaixada norte-coreana em Londres reclamaram com o dono de uma barbearia que usou um pôster de Kim Jong-un e a pergunta "Dia ruim com o cabelo?".
Em julho, Pyongyang pediu a Pequim a retirada de um vídeo, que se tornou viral, que satirizava o líder norte-coreano.
"A Coreia do Norte não se caracteriza por ter o melhor senso del humor do mundo. Assim, nunca aceitará este filme", afirma Peter Beck, especializado em Pyongyang que trabalha para o Instituto Novo Paradigma de Seul.
"A Entrevista" também aborda a estranha, mas verídica, amizade de Kim Jong-un com o ex-jogador da NBA Dennis Rodman, que visitou Pyongyang algumas vezes.
O longa-metragem conta ainda com participações de outras estrelas, como o rapper Eminem, que afirma no filme ser homossexual, o ator Rob Lowe usando uma peruca, além de Nicki Minaj, Joseph Gordon-Levitt, Seth Meyers
e Bill Maher.
O grupo "Guardians of Peace" (Guardiões da Paz), ou GOP, que afirma ter hackeado o sistema da Sony Pictures pediu na semana passada que o filme não estreie. Mas a Sony, que adiou a estreia de outubro para dezembro, não parece ter planos neste sentido.
Novas ameaças hackers O presidente da Sony, Michael Lynton, realizou na segunda-feira uma reunião com seus funcionários da sede da Califórnia para abordar as consequências do ciberataque sofrido nas últimas semanas, que tornou públicos e-mails comprometedores entre os diretores da empresa.
A Sony foi vítima de um ataque a seus servidores no dia 24 de novembro, realizado pelo GOP, que gradualmente foi vazando mensagens dos diretores dos estúdios e outros dados confidenciais. Os funcionários receberam no final de semana um e-mail do GOP anunciando que ganhariam "um presente de Natal", com a publicação de "um grande número de informações". "Este presente os fará muito felizes e colocará a Sony em uma má situação", diz a mensagem. A presidente da companhia, Amy Pascal, foi uma das mais prejudicadas pelo vazamento dos e-mails, tendo que pedir desculpas, na semana passada, ao presidente americano, Barack Obama.
Em uma troca de mensagens com o produtor Scott Rudin, Pascal escreve se deve perguntar a Obama sobre os filmes "Django Livre", "12 anos de escravidão" e "O mordomo da Casa Branca", todos eles sobre a questão racial nos Estados Unidos. Rudin também fez ataques à atriz Angelina Jolie por sua possível participação na produção de "Cleópatra", chamando-a de uma "menina mal educada com talento mínimo", "infantil, irresponsável e caprichosa". A imprensa americana informou que os hackers conseguiram roubar o roteiro do próximo filme de James Bond, protagonizado por Daniel Craig e dirigido por Sam Mendes, cuja filmagem terá início em breve. De acordo com diversas fontes, todos os ataques estariam relacionados à estreia de "A Entrevista".
Assista ao trailer: