É bom ter estômago forte para ver "Ilha do Medo", novo filme de Martin Scorsese que chega nesta sexta-feira aos cinemas gaúchos. Suspense carregado de terror psicológico, o filme começa com um Leonardo Di Caprio apresentado como Teddy Daniels, detetive norte-americano que se dirige para Shutter Island, local que abriga o impenetrável Hospital Psiquiátrico Ashecliffe. Daí em diante, a maestria de Scorsese conduz o público a uma viagem pelo universo de medos, traumas e lembranças dolorosas do personagem de DiCaprio, enquanto apresenta uma visão panorâmica da ilha e de seus pacientes/habitantes. A história se passa em 1954, e a estética é perfeita ao remontar fatos que habitam o imaginário do detetive Daniels, herói de guerra, e tragicamente viúvo. DiCaprio procura evidências de suposto desaparecimento ocorrido na ilha/hospital, acompanhado da talentosa atuação de Ben Kingsley (o eterno "Gandhi") na pele do doutor Cawley, um médico brilhante que observa as descobertas da psiquiatria no campo dos medicamentos, em busca de tratamentos mais saudáveis do que os até então aplicados. Mas nada é o que parece em dias e noites de tempestade.
Baseado no livro "Paciente 67", de Dennis Lehane, "Ilha do Medo" mantém, do início ao fim, o clima de tensão psicológica, colocando em cena personagens fortes, carregados de uma dramaticidade complexa e criando um universo assustador. Não é à toa que Scorsese, convidado para a direção, lembrou do clássico do cinema mudo alemão, "O Gabinete do Dr. Caligari". Aquela obra-prima do Expressionismo alemão, dirigida por Robert Wiene, também entrou para a história do cinema por ser o mais famoso filme sobre psiquiatria, projetando na tela, como num delírio, toda a ambivalência da alma humana. A dupla Scorsese e Di Caprio, que já deu certo em produções como "Gangues de Nova Iorque" e "Os Infiltrados", consegue um resultado similar ao de Wiene, ao transpor para o cinema os paradoxos de saúde, normalidade, traumas, loucuras, paranoias, confusões mentais e tratamentos psiquiátricos. Cada diálogo mais profundo pode ser tomado como tema para discutir a própria contemporaneidade da saúde mental, ou a medicamentação das emoções, dos medos e dos traumas.
Do início ao fim, a trama do detetive Daniels é uma referência às vivências psicológicas de quem viveu o auge da paranoia da Guerra Fria. A narrativa do livro de Lehane, envolvida em uma atmosfera de ansiedade, é levada à tela pela lente apurada de um dos maiores cineastas dos últimos tempos. Em "Ilha do Medo" o som é tão fundamental quanto sua ausência. Em alguns momentos o universo sonoro remete à História, como a aproximação às atrocidades nazistas, com imagens acompanhadas da melodia de "Quarteto para Piano e Cordas em Lá Menor", de Gustav Mahler. A intensa sonoridade que povoa o filme na trilha sonora traz outras referências como a de "Lontano", escrita por György Ligeti e interpretada pela orquestra Filarmônica de Berlim. Vale ver e ouvir!
Ilha do Medo, de Martin Scorcese, estreia hoje nos cinemas gaúchos
Diretor conduz o público a uma viagem pelo universo de medos, traumas e lembranças dolorosas