Ninguém ficou ferido no incidente, que foi iniciado a partir de um coquetel molotov jogado contra o prédio, segundo a polícia. O incêndio destruiu o térreo e o primeiro andar do prédio da revista, na zona Leste de Paris, mas foi controlado, segundo a polícia, que não prendeu ninguém em flagrante.
"A liberdade de expressão é um valor inalienável de nossa democracia", declarou o primeiro-ministro francês François Fillon, que manifestou "indignação" com o incêndio na redação do semanário. A revista mordaz decidiu, para "celebrar a vitória" do partido islamita Ennahda nas eleições na Tunísia, fazer do profeta Maomé o editor do número desta quarta-feira, que recebeu o título especial de "Sharia Hebdo". A sharia é lei islâmica.
O título da publicação, que chegou às bancas nesta quarta-feira, precedido por um grande debate nas redes sociais, também é uma referência ao recente anúncio do Conselho Nacional de Transição na Líbia da restauração da lei muçulmana. "Cem chicotadas se você não morrer de rir", ironiza a capa da publicação, que teve o site aparentemente afetado pela ação de hackers nas últimas horas.Ameças foram recebidas nas redes sociais
A edição inclui um editorial assinado por Maomé, com o título "Aperitivo Hatar", ilustrações e até um suplemento feminino, o "Sharia Madame". Na última página há uma charge de Maomé, com um nariz vermelho de palhaço: "Sim, o Islã é compatível com o humor", afirma o profeta no desenho.
De acordo com o diretor da revista, o desenhista Charb, o incêndio está "diretamente vinculado" com a edição especial desta quarta-feira. "No Twitter, no Facebook, recebemos muitas mensagens de protestos, ameaças, insultos, que a direção da revista pretende repassar à polícia", relatou.
Revista poderá operar em outras publicações
Dois outros veículos de comunicãção ofereceram asilo à redação do semanário. "As equipes da Charlie Hebdo são bem-vindas, até que encontrem uma nova sede e computadores", anunciou o diretor de redação do Libération, Nicolas Demorand. A Nouvel Obs também fez uma oferta similar, em sinal de solidariedade.A publicação já havia recebido ameaças durante a publicação das caricaturas de Maomé em 2006. Mas para Charb, o número desta quarta-feira "não tem o mesmo alcance, é mais uma piada que outra coisa". "A iniciativa buscava apenas abordar um tema da atualidade com o humor que caracteriza a revista", afirmou.
Autoridade muçulmana condena incêndio, mas admite ofensa ao Islã
O presidente do Conselho Francês do Culto Muçulmano (CFCM), Mohammed Moussaui, condenou com firmeza o incêndio "se for confirmado que teve origem criminosa". Ele afirmou que a capa da publicação é "menos "violenta" que as caricaturas do profeta publicadas há cinco anos. O CFCM destacou, no entanto, que "fazer caricaturas do profeta é considerado uma ofensa pelos muçulmanos".
Em fevereiro de 2006, a revista satírica publicou 11 páginas de charges de Maomé, que haviam sido publicadas no ano anterior por um jornal dinamarquês. O chargista Kurt Westergaard foi alvo de uma tentativa de assassinado por um fanático.