Arte & Agenda

Indicação brasileira ao Oscar 2017 é fortemente criticada por cineastas

Classe artística reprovou "Pequeno Segredo" e apontou teor político na escolha

"Pequeno Segredo", de David Schurmann, foi anunciado nesta segunda como representante brasileiro
"Pequeno Segredo", de David Schurmann, foi anunciado nesta segunda como representante brasileiro Foto : Divulgação / CP
A classe artística reagiu à nomeação de "Pequeno Segredo" como representante do Brasil na busca por indicação ao Oscar 2017. Apesar do entusiasmo do diretor David Schurmann - que, pelo Facebook, agradeceu "a todos os que acreditam nesse filme" e disse que a equipe "fará de tudo e não aconomizará energias para representar o país na premiação" - cineastas criticaram a escolha.

A diretora Anna Muylaert afirmou que o indicado deveria ser "Aquarius". "Do meu ponto de vista o maior prejudicado não foi nem é Kleber e sua equipe e sim o cinema brasileiro", escreveu a paulistana, que havia retirado da corrida seu próprio filme, "Mãe Só Há Uma", em apoio ao longa de Kleber Mendonça Filho. Ela foi ainda mais efusiva e disse que houve uma grande batalha nos últimos anos em várias esferas tanto pela qualidade do cinema brasileiro quanto por sua visibilidade no exterior e que a indicação do filme sobre a família Schurmann é um regresso neste sentido. 

"Ora Kleber Mendonça fez um filme - goste-se ou não - importante, extremamente bem dirigido e que conquistou uma vaga na competição de Cannes - a mais difícil do mundo. Alem disso, está tendo sucesso de publico e de critica no seu país de origem. Escolher outro filme para representar o Brasil agora - um filme que ninguém viu - não é apenas uma derrota para "Aquarius", é antes de tudo uma mudança de rumo nos paradigmas de qualidade que viemos construindo todos nós juntos há anos" comentou.

Escolha teve teor político

Anna, crítica do governo Michel Temer, afirmou que os amigos do presidente "serão os grandes autores do cinema brasileiro - independentemente de sua qualidade ou mesmo de sua representatividade junto ao publico". Segundo ela, a nomeação tem um cunho fortemente político e "o problema de dar um golpe é ter que dar mais infinitos golpes para manter o golpe principal". "Quando se está vivendo sob a égide de um golpe nacional, porque haveria de ser diferente com o cinema?", perguntou ela.

O teor político também foi destacado pela a pesquisadora da UFRJ Ivana Bentes. Pelas redes sociais, ela disse que "é escandalosa a não indicação de 'Aquarius' para disputar o Oscar, por retaliação política de um ministério e governo ilegítimos". A professora argumenta que trata-se de um filme sóbrio, mas duro e profundo sobre "os cupins de demolição que estão hoje corroendo as paredes da democracia e do Estado de Direito no Brasil", dando destaque para o reconhecimento internacional que o longa protagonizado por Sônia Braga ganhou e pela linguagem. 

Ela aproveitou também para mostrar seu descontentamento com o Ministro da Cultura, Marcelo Calero. "Ele diz que está desaparelhando o MinC e passa a divulgar sua agenda com 'atraso' no site do MinC para não ser alvo de protestos, contrariando recomendação do Ministério da Transparência", escreveu. "Um Presidente da República e um Ministro da Cultura que tem que se esconder do público, se esquivar, evadir, dar W.O porque não suportam encarar a ruidocracia e os muitos! Não suportam se enxergar no espelho que devolve suas próprias imagens de golpistas e golpeadores", finalizou.

Outro diretor que se manifestou logo após o anúncio foi Aly Muritiba - que também retirou seu filme ("Para Minha Amada Morta") da disputa. "Uma das piadas da qual não participei. Nunca reconheci esta comissão: o golpe estava anunciado há tempos. E o Bruno Barreto ainda ousou dizer que retiramos nossos filmes por medo do 'Aquarius'...chupa Bruno Barreto! Medo de quê????", falou, se dirigindo diretamente ao presidente da comissão que elegeu  "Pequeno Segredo".

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