Houve um tempo em que, salvo apresentações ao vivo, a única forma de ouvir seu artista ou grupo favorito no Brasil era recorrer a um disco de vinil ou a uma fita cassete. Até que, no início da década de 1990, aos poucos o CD (compact disc) começou a se popularizar. Como foi também a época em que a MTV finalmente chegou ao Brasil, a música experimentou um novo momento no país, como se portas nunca antes imaginadas se abrissem ao público.
Não é difícil imaginar, portanto, que as pessoas que viveram aquela época guardem com carinho as lembranças musicais. Sendo assim, quando neste domingo o grupo Information Society, a cantora Thea Austin e o cantor Noel Pagan subiram ao palco do auditório Araújo Vianna, o jogo já estava ganho.
Antes de mais nada, cabe uma observação. Intencional ou não, a campanha de divulgação dos shows dava a nítida impressão de apostar na nostalgia dos anos 1990 para conquistar o público, vendendo a ideia de três shows da época. Até aí, nada demais. Ocorre que na prática, a noite era toda do Information Society.
Thea e Noel foram show de abertura
Tanto Noel como Thea (que estava lá em função da sua participação em outro grupo, o Snap!) funcionaram como espetáculos de abertura, com sets bem mais curtos, de pouco mais de meia hora, enquanto os norte-americanos de Minnesota tocaram por cerca de 90 minutos. O que não foi de todo ruim porque foram, de longe, a atração mais competente da noite. Noel subiu ao palco pouco depois das 20h e mostrou algumas de suas músicas do primeiro álbum, de 1988. Contudo, foi quando tocou “Silent Morning” que a plateia de fato interagiu de forma mais efusiva.
Após um intervalo, veio Thea. Tal qual uma diva negra da época da disco ou da soul music, mostrou que, aos 65 anos, mantém o mesmo vozeirão que a tornou conhecida em canções como “Rhythm Is a Dancer” e “See the Light”, ambas do segundo álbum do Snap!, “The Madman´s Return” – essa última cantada a capella. Até mesmo por isso, pareceu um pouco estranho o recurso do playback, que em alguns momentos se fazia nítido.
O que soou como empecilho, contudo, foi outro aspecto. As músicas do Snap! sempre mesclaram os vocais femininos poderosos de Thea (e antes dela, de Penny Ford) com trechos de rap, esses feitos pelo cantor Turbo B, resultando em uma dance music que dominava a cena eletrônica à época. Sem a parte do rap, as novas versões pareciam reduzidas, com a artista basicamente repetindo os refrões. Menos mal que com muito talento e carisma.
Banda não se acomodou na nostalgia
Feitas as aberturas, era hora da atração principal, o que a própria montagem do palco evidenciava, com um telão que exibia colagens em uma velocidade tal qual a quantidade de camadas de som que o grupo liderado por Kurt Harland exibia a cada nova música. Ao contrário de Noel e do próprio Snap!, o Information Society sobreviveu aos anos 1990, lançando quatro álbuns de 2007 para cá.
Descrever o estilo da banda não é tarefa das mais fáceis. Se as canções ouvidas ali minutos antes eram facilmente transpostas para uma pista de dança, nem todas as músicas do Information Society funcionam assim. Não foi por acaso que o público parecia estranhar um pouco a mistura de sintetizadores, ruídos, new wave e techno que resultava em um caos calculado. Sem dúvida um pouco fora da curva, mas reside justamente aí o mérito da banda em não deitar simplesmente no berço esplêndido da nostalgia. Ponto para eles, que mesmo depois de três décadas do seu ápice em termos de sucesso, não soaram datados.
Fora que bastou aparecerem as “conhecidas” que as mãos com celulares se levantaram para registrar o momento. E, convenhamos, hoje em dia este talvez seja o termômetro mais confiável para saber quando o show está agradando. “Peace and Love Inc.”, “What´s on Your Mind”, “How Long”, “Think” e, por fim, “Repetition”, essa já no bis. E a julgar a plateia desse domingo, o Information Society agradou bastante.