Sexta-feira/Interior/Noite. Um palco semi-iluminado tem duas cadeiras, um piano com um banco e um púlpito com um macbook. O local é o Teatro Simões Lopes Neto, do Multipalco Eva Sopher. O burburinho da plateia já prenuncia uma noite histórica para Porto Alegre. Indicado duas vezes ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante, John Malkovich está prestes a adentrar o palco para uma leitura dramática musicada de um texto do escritor chileno Roberto Bolaño, “The Infamous Ramirez Hoffmann”, contido na obra “A Literatura Nazi nas Américas”.
Quando ele entra no palco, após uma introdução musical do trio que o acompanha, a pianista Anastasya Terenkova, o violinista Andrej Bielow e o bandoneonista Fabrizio Colombo, o que era ansiedade e burburinho vira contemplação e expectativa do que o texto com a leitura dramática musicada poderão causar na plateia.
O formato de plateia permitiu a algumas pessoas ocupar o palco do Teatro Simões Lopes Neto e assistir à apresentação do espetáculo Hoffman a poucos metros de distância do próprio Malkovich e dos músicos. A iniciativa surgiu de forma espontânea, ainda durante o ensaio. Após ser recebido pelo presidente da Fundação Theatro São Pedro, Luciano Alabarse, com o convite para que se sentisse “em casa”, Malkovich levou a expressão ao pé da letra. Em gesto e generoso, o artista sugeriu que a plateia fosse integrada ao espaço cênico. Como sentei nas cadeiras junto ao fosso, pude avistar alguns amigos nesta plateia seleta como a diretora teatral Adriane Mottola e o diretor e ator Marcelo Réstori.
Outro detalhe foi a escolha das cadeiras históricas do São Pedro para compor o palco. Malkovich se encantou com o mobiliário original e fez questão de mantê-lo na encenação.
Voltando a experiência de em torno de 1h30min de espetáculo, o texto de Bolaño trata de um personagem do Chile do início dos anos 1970, que é um misto de poeta, aviador e figura ligada à extrema direita, capaz de escrever poemas com a fumaça do avião e de desaparecer sem deixar vestígios, bem na linha do realismo mágico do boom latino, mas com a pegada de movimento contínuo dos personagens e ação fragmentada de Bolaño. A trama acompanha sua ascensão em meio ao golpe militar e investiga os limites entre criação artística, poder e violência. A trilha sonora executada com maestria pelo trio de músicos traz de Astor Piazzolla a Leonid Desyatnikov, de Erik Satie a The Doors. Da minha parte, só um detalhe que acho que a escolha de repertório poderia respeitar um pouco mais a trajetória de Bolaño, colocando alguns compositores chilenos na jogada, mas Malkovich optou por representar a América Latina como um todo pelo texto do autor chileno, morto em 2003.
A leitura de Malkovich traz uma infinidade de camadas dramatúrgicas e cada gesto ou pausa do ator de 72 anos apresentaram uma densidade e uma torrente de significados que davam ao texto uma profundidade e uma emoção únicas. Quando ele faz um gesto sobre um copo de uísque com a mão, nós sentimos o líquido no copo e os gelos tilintando. Cenicidade pura e uma noite histórica para a Capital.