Com tantas mudanças e novidades, a Feira do Livro de Porto Alegre chegou a sua 60ª edição com uma cara mais jovem. Pela primeira vez, o evento investe em atividades específicas para uma faixa etária entre 18 e 30 anos, uma necessidade percebida no ano passado, quando um levantamento mostrou que esse público representava quase a totalidade dos participantes das oficinas realizadas. “Ficamos um pouco surpresos ao perceber que essa geração tão conectada estava muito presente na Feira, principalmente na Área Adulta, e que é extremamente leitora. Isso é ótimo! Mas também vimos que não tínhamos atrações específicas para ela e precisávamos disponibilizar isso”, considera Jussara Rodrigues, responsável pela programação adulta do evento.
De 2013 para cá, com a ajuda de um grupo de curadores também mais jovens, a 60ª edição foi construída para ser mais atrativa a essa turma. A ideia inicial foi oferecer mais atividades multimídias, envolvendo principalmente blogs, séries e gêneros como o terror e o romance. A maioria das atrações está sendo realizada na Tenda de Passárgada, que foi toda reformulada para ficar chamar a atenção do público-alvo. “Como esse ano está servindo como um ‘laboratório’, nós buscamos fazer uma programação baseada nos nichos com que eles se identificam, para, a partir disso, podermos entendê-los e melhorarmos daqui para frente”, diz Jussara, que revela que o grande desafio foi transformar a linguagem e a configuração das ações para deixá-las com ar menos formal.
E mesmo sem dados oficiais, já é possível perceber que há retorno desse público. Um dos eventos mais procurados da Feira é o “Tu, Frankenstein 3”, que une o terror, o horror e a fantasia, e acontece nesta sexta e sábado. Para Duda Falcão, curador do projeto, mesmo que os autores participantes sejam mais experientes, esses gêneros são os que mais atraem os jovens, porque também estão presentes em diversas mídias e mexem muita com a imaginação. “Acho que a grande questão é que a Feira está valorizando cada vez mais todos os tipos de literatura, e aí também entram o horror e o policial, que sempre foram considerados menores. O destaque dado agora certamente ajuda a quebrar barreiras e divulgar esses gêneros, que já são aceitos por grande parte da galera mais nova pela multiplicidade de temas e formas que possuem”, acredita.
Uma das principais atividades do “Tu, Frankenstein” é a noite em que autores se reúnem em uma biblioteca para escrever contos de terror, o que é visto por Jussara como mais uma forma de chamar os jovens para o evento. “Outra característica que nós analisamos é que eles gostam cada vez mais de escrever. Acho que é por causa da internet e de tantas plataformas escritas, mas o fato é que a palavra está valendo muito para esse público”, diz.
Nesse sentido, outro destaque da programação é o FRAPA, o festival de roteiro de audiovisual de Porto Alegre, que recheia a Feira do Livro a partir de terça-feira até o dia 16. Conforme o diretor geral Leo Garcia, com o crescimento do mercado de produção audiovisual no país nos últimos anos, os jovens têm demonstrado grande interesse nessa área, principalmente no que diz respeito aos roteiros. Assim, o evento possibilita que a galera desenvolva técnicas de narrativa e de escrita.
E Leo acredita que isso faz com que a parceria entre a Feira e o FRAPA seja ainda mais importante. “Essa relação com a Feira é uma via de mão dupla, pois ao mesmo tempo em que o FRAPA traz esse público mais interessado em cinema e TV para a praça e as imediações, o pessoal que frequenta a Feira também aparece no FRAPA para conferir os debates ou os filmes. Então, é uma relação que acaba sendo positiva para ambos, pois proporciona uma interação entre a literatura e o audiovisual”, avalia.
Essa interação destacada pelo Leo é justamente o que a Feira do Livro busca ao abrir mais espaço aos jovens. Segundo Jussara, os encontros entre gerações ajudam a disseminar a literatura e fazer com que as pessoas pensem mais, se expressem melhor e desenvolvam uma crítica mais embasada. “A literatura faz a gente ir além, ela tem um papel de formador de cidadania, e é por isso que a gente tem que fazer com que ela seja discutida entre as pessoas mais novas, que estão construindo suas ideias sobre o mundo”.
Jovens ganham mais atenção na Feira do Livro
Pela primeira vez, o evento investe em atividades específicas para a faixa etária entre 18 e 30 anos