*Sob supervisão de Adriana Androvandi e Luiz Gonzaga Lopes
Encerra-se hoje a mostra “Bressane 80”, programação da Cinemateca Capitólio que reuniu doze filmes de Júlio Bressane, ícone do cinema marginal e um dos realizadores mais importantes do cinema brasileiro. Entre as exibições, destacou-se um dos momentos mais marcantes da história recente da cinefilia gaúcha. Na noite de sexta-feira, dia 18, os cinéfilos de Porto Alegre se reuniram para prestigiar a presença de Bressane e da atriz Helena Ignez, protagonista do filme “Barão Olavo, O Horrível”, exibido na ocasião, em sessão lotada.
Bressane, ao ser chamado ao palco durante a apresentação, emocionou-se com a sala cheia. “Nunca imaginei! Em todas as projeções e exibições do "Barão [Olavo, o Horrível]", não tinha metade da gente. Isso aqui tinha dez vezes mais”, repetiu ele em entrevista. No debate, a sala inteira escutou atentamente as longas falas de Bressane. O cineasta havia preparado um texto, escrito à mão, com o objetivo de “não se perder em devaneios aberrantes”, como ele próprio colocou. Ainda assim, se perdia e interrompia a leitura para explicar cada ponto. O público presente não pareceu se importar, feliz em ouvir o realizador.
Helena Ignez chegou quando o filme já tinha começado e, mesmo com as luzes apagadas, gerou comoção entre a plateia. Durante a conversa, a atriz saudou Bressane e finalizou com um “te amo”. Ela usava uma camiseta estampada com uma das cenas mais emblemáticas da filmografia do cineasta, em que a personagem interpretada por Helena solta um líquido preto pela boca.
Em uma rápida entrevista concedida após a sessão, ainda dentro da sala de cinema, Bressane ressaltou uma de suas ideias mais presentes: a de que o cinema resta oculto dentro do filme. “O cinema tem essa força fantasmagórica [...] É essa que é sempre a surpresa quando você vê um filme, tem um momento em que a própria imagem desaparece e você, então, consegue ver ali a coisa que está organizando a imagem”, diz ele.
O cineasta confessou que ficou desapontado ao rever seu filme. Para ele, o sentido da obra se perdeu fora do horror que se presenciava durante a Ditadura Militar, época em que “Barão Olavo, O Horrível” foi realizado. “Meu Deus do céu, pra quê um negócio desse? Mostrar uma anatomia ao vivo, arrancar ali e mostrar as vísceras. Mas não é assim, você vê o contrário. As pessoas se sentiram de outra maneira”, surpreende-se. Bressane se preocupa, porém, com a volta de um terror semelhante, que sobrevive mesmo após 56 anos. "Pensar assim é pensar à beira de um precipício, e adormecer, e cair", alerta ele.
Enquanto o cineasta era entrevistado, um grupo de jovens se aglomerava ao redor. Eram os membros do Clube do Filme, iniciativa do Programa de Alfabetização Audiovisual (PAA). Eles se reúnem toda quarta-feira na Cinemateca Capitólio para falar de cinema e se tornaram frequentadores assíduos dos cinemas de rua da capital. Estavam em peso na sessão.
“Ouvir Júlio Bressane falar sobre cinema é perceber que a criação talvez não esteja na busca incessante pelo novo, mas na capacidade de retornar ao mundo das formas e das imagens para encontrar nele ideias ainda não exploradas”, diz Victor Overbeck, participante do Clube do Filme. Já para Milena Alfama, bolsista do projeto, foi uma noite especial. “Um respiro em meio ao caos. Foi muito bom ver um diretor que, diante do abismo de seu tempo, criou filmes incríveis”, comentou.
Confira a entrevista completa
CP – Tu sempre repete que o cinema resta oculto no filme. A partir dessa ideia, quando tu vê teus filmes aqui na sala de cinema, que cinemas te assombram como fantasmas?
Júlio Bressane – Bem, deixa eu te dizer. Essas são duas perguntas.
A coisa é o seguinte. Quando você vê... O que você viu aqui hoje? Você viu um filme. O que é um filme? São os atores, cenografia, figurinos, cenários, maquiagem... Isso é o filme. Cinema é o que organiza isso. Cinema está atrás disso. Então o cinema, ele está oculto. O filme oculta o cinema. Agora, essa ocultação é a evidência dele. O oculto é o que faz com que ele apareça.
Todas as épocas, o que assombra, em todas as épocas, é um fantasma. Todas as épocas tem um fantasma. Todas as épocas são assombradas por um fantasma. O cinema tem essa força fantasmagórica, de sempre apresentar alguma coisa que, na verdade, oculta a coisa de trás. Parece que você está vendo uma coisa e na verdade está aparecendo uma outra. É essa que é sempre a surpresa quando você vê um filme, tem um momento em que a própria imagem desaparece e você, então, consegue ver ali a coisa que está organizando a imagem. O que se oculta é a evidência.
Se oculta o quê? Quando se ocultou, se ocultou por quê? Porque tem uma evidência ali. Você escondeu alguma coisa, então por que você escondeu alguma coisa? O que está escondido ali? Essa que é a questão do cinema. Na filosofia, é a questão do ser. Como é que o ser aparece? O ser é oculto, o ser não aparece. O ser está sempre oculto, mas, nesse ocultar, ele surge. É no ocultar-se que ele aparece.
É a mesma coisa que o clichê. Quando você tem a percepção do clichê, é que você consegue passar para uma outra coisa. Bom, faz a outra pergunta.
CP – Eu lembro, na [Mostra de Cinema de] Tiradentes, quando eu te ouvi falar pela primeira vez - e eu achei muito massa, inclusive - tu comentou que achar um estilo é também a morte de um artista. O que, aos 80 anos, tu procura fazer de diferente para não repetir um estilo?
Júlio Bressane – Deixa eu te dizer. A questão do estilo, nesse sentido, é uma percepção insuficiente do estilo. Você imagina que estilo é porque parece aquilo. Não, estilo é uma outra coisa. O estilo depende de uma arqueologia, para você ver onde é que aquela coisa se manteve. A busca de uma coisa hoje é uma busca arqueológica. Você precisa da arqueologia para chegar a essas coisas.
Agora deixa eu dizer uma coisa a você. Isso não precisa estar na reportagem. Você, quando faz alguma coisa, você faz por duas razões. Uma, para saber o que é. Se você soubesse o que é, já estava feito. Você faz uma coisa porque você não sabe o que é. E depois que essa coisa está feita, a primeira coisa que você tem que fazer é abandonar essa coisa.
O estilo, quando é que ele era observado? É quando não havia quase como distinguir de um outro. Nessa diferença é que estava o estilo. Que eram coisas semelhantes, mas não eram iguais. É nessa semelhança é que está o estilo. Uma maneira de se interpretar o que seja o estilo. A coisa mais difícil que tem é você fazer uma análise de alguma coisa através do estilo. É preciso que você recue muito pra ver da onde é que a coisa vem.
Há um estudo célebre sobre um quadro do Manet chamado "Le Déjeuner sur l'herbe". É um quadro do século XIX. 1860, por aí. Ele bota a origem daquele quadro, a primeira configuração daquilo, em um sarcófago grego. Mostrar que, do sarcófago grego até aquele quadro, ele se manteve. Houve alguma coisa que se manteve ali. Houve um estilo que ficou ali. É preciso uma busca atrás, arqueológica, para você chegar até onde a coisa pode ser decidida.
E outra coisa é o seguinte. [Olhando para o grupo de jovens reunido ao redor] Não é contra vocês isso não, viu? Mas havia um grande escritor francês - aliás, um inovador da língua francesa - disse assim: "a entrevista é uma necrose da linguagem". Por que? Você está aqui comigo, conversando aqui comigo. Estou te dizendo essas coisas todas aqui. Daqui a 20 minutos, meia hora, talvez isso aqui não valha mais nada, já talvez esteja pensando em outra coisa.
O homem tem uma coisa curiosa. Ele tem uma capacidade de modificação. Tem um escritor antigo que dizia que o crime que você cometeu há 10 anos atrás, você não podia pagar por ele hoje, porque você já não era a mesma pessoa. A coisa se renova. Você não era a mesma pessoa. Você está falando aqui agora... Falando aqui agora, olhando para você, para ela, olhando para ele... Aqui é uma outra emoção. Estou dizendo coisas aqui. Agora, isso só vale para aqui. Não vai chegar daqui e se transformar numa tábua da lei. Nem pode! Daqui a 20 minutos, você me vê e talvez eu negue tudo isso. Porque você vai mudando a coisa.
São duas coisas. Tudo se modifica e, na verdade, nada muda. Tem sempre uma modificação, aparece alguma outra coisa, mas nada muda. A coisa central é essa dificuldade. É a impossibilidade humana de comunicar. Não existe comunicação. Um, dois, três, quatro [apontando para cada um do grupo], existem cinco abismos aqui. Não há comunicação. Você pode tentar, com muita dificuldade, uma interpretação. É a coisa mais difícil, é a interpretação. Agora, tudo isso, como eu estou te dizendo, são coisas que se modificam. Você está fazendo a entrevista agora, amanhã isso aí já pode ser que eu peça para você não fazer.
CP – Pegando esse gancho, quando tu revê teus filmes e está vendo essa mostra que reúne tua trajetória, qual o primeiro sentimento ou pensamento que vêm pra ti? O que mudou, o que ficou, o que vêm pra ti quando tu está vendo teu filme na telona e se passaram 50 anos?
Júlio Bressane – Olha, deixa eu te dizer. A coisa que eu vejo é que tem muita coisa ali, mas que faltou muita coisa também. Faltou muita coisa também. Sempre todas as coisas, quando você observa, foram feitas ali no seu limite, mas elas são insuficientes. Então, geralmente, quando você vê uma coisa assim... Por exemplo, esse filme que eu vi hoje, eu fiquei desapontado. Só tinha sentido naquele momento ali, naquele horror que se estava vivendo ali, uma situação horrorosa. Você podia sair no meio da rua e tomar um tiro, por nada. O cara te atirava dentro do carro, te arrancava porque você estava com uma bagana de fumo no bolso, queria te matar. Isso era o Estado.
Quando a menina me chamou para falar... Bom, a primeira vez não consegui falar, eu fiquei emocionado de tanta gente. Nunca imaginei, nunca imaginei! O que eu disse é verdade. Em todas as projeções e exibições do "Barão [Olavo, o Horrível]", não tinha metade da gente. Isso aqui tinha dez vezes mais.
É uma coisa que, também, você, quando vê, tem essa sensação de incompreensão. O que eu vou dizer de uma negócio desses? Nem sei. Feito numa situação de emergência, de desespero, de sofrimento imenso. Naquele momento, naquela situação. Você vê isso depois, qual o sentimento que você tem daquilo? Nenhum. De alguma maneira, senti até um pouco de vergonha de ter que falar. Não é possível que essa gente tenha suportado um troço desse. Um negócio desse, naquele momento, naquele horror, teve um sentido e funcionou, foi uma cópula feliz. Uma boa cópula ali, naquele momento.
Você vê isso hoje, você fica com vergonha. Meu Deus do céu, pra quê um negócio desse? Mostrar uma anatomia ao vivo, arrancar ali e mostrar as vísceras. Mas não é assim, você vê o contrário. As pessoas se sentiram de outra maneira. Tornou-se aceitável, foi uma coisa aceitável.
Mas é preciso sempre tomar um cuidado muito grande. Eu falei aqui e é um negócio muito importante - e é uma boa literatura, aliás, uma bonita construção. É um conselho que parece que foi dado a nós agora aqui no Brasil. Um conselho dado ao Brasil. Imagina que existe essa instituição, Brasil. "Pensar assim é pensar à beira de um precipício". O precipício está aí. "Pensar assim é pensar à beira de um precipício, e adormecer, e cair". É o que pode acontecer agora. Nós estamos à beira de uma abismo. Isso aqui, 56 anos trás, esse sentimento pode voltar. Sobreviveu esse horror. Aquele horror lá, está aqui agora. Estamos à beira de acontecer um desastre igual aquele, uma regressão daquilo.
O medo é nesse sentido, de você na beira do abismo dormir e cair lá embaixo. E é aí que nós estamos agora, na beira desse abismo. Voltar 56 anos atrás, a situação era essa. A abjeção era esse que você viu aí. É uma coisa abjeta. Não há luz, não há cor, que possa apagar uma monstruosidade daquela.
Passou 56 anos e, nesse intervalo, se estruturou uma sobrevivência. É essa que está chegando aí. Sobreviveu. E outra coisa, nada acaba, viu? Tudo sobrevive. A sobrevivência se dá no intervalo. Nesse intervalo é que se estrutura a sobrevivência. Sobrevivência vem sempre com outro valor, com outras formas e com outro significado. Sobrevive, alguma coisa sobrevive. É isso que nós estamos vendo aí.