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“Juntos” e “Os Enforcados” chegam aos cinemas

Crítico de cinema Marcos Santuario comenta, em poucos minutos, as produções que podem ser conferidas, a partir desta quinta-feira, dia 14 de agosto

Crítico de cinema Marcos Santuario comenta as produções
Crítico de cinema Marcos Santuario comenta as produções Foto : Youtube / Reprodução / CP

Amor é cura? Ou maldição? Nesta quinta-feira os cinemas brasileiros recebem dois filmes que jogam essa pergunta no colo do espectador. Sem a menor intenção de dar uma resposta fácil. “Juntos”, do canadense Michael Shanks, e “Os Enforcados”, do brasileiro Fernando Coimbra, exploram as rachaduras das relações humanas com as ferramentas afiadas do terror psicológico e do suspense moral. Duas obras que, apesar de universos distintos, compartilham da mesma premissa sombria: quando tudo falha, o amor pode ser tão perigoso quanto um assassino à espreita.

Em “Juntos”, Dave Franco e Alison Brie interpretam Tim e Millie, um casal tentando reconstruir sua vida em uma cidade isolada dos EUA, o clássico “novo começo” que, no cinema de horror, quase nunca termina bem. A floresta ao redor da cidade parece respirar, observar, influenciar. E logo fica claro que não é apenas o cenário que é ameaçador: a verdadeira ameaça mora dentro da própria relação. Shanks opta por uma abordagem atmosférica, onde o sobrenatural funciona como espelho dos traumas emocionais. O que começa como tensão conjugal se transforma em um pesadelo simbiótico, onde corpo, mente e sentimento se corrompem. Com ecos do terror intimista de Ari Aster e a densidade psicológica de filmes como “Possession” (1981), “Juntos” não busca o susto fácil. Ele implanta o desconforto sob a pele.

BRASILEIRO

Já “Os Enforcados” aposta na tensão moral que emerge quando amor e lealdade entram em conflito com sobrevivência e ambição. Leandra Leal e Irandhir Santos brilham como Regina e Valerio, um casal apaixonado tentando se desvencilhar dos negócios sujos herdados pela família mafiosa dele. Quando o tio Linduarte (em um Stepan Nercessian ameaçador e encantador na medida certa) se recusa a deixá-los sair em paz, a solução parece simples — e brutal: matar. Mas nada é simples quando se trata de crime, poder e legado.

Fernando Coimbra, aclamado pelo elogiado “O Lobo Atrás da Porta”, que teve ótima carreira internacional, reafirma seu domínio no suspense ao criar um thriller urbano carregado de crítica social, onde o Rio de Janeiro é mais do que cenário, é um personagem. Ao lado de Irene Ravache, que entrega uma performance fria e comovente como a matriarca da família, o elenco entrega uma narrativa tensa, suja e profundamente humana.

Se em “Juntos” o terror vem de dentro — de emoções não resolvidas e da simbiose tóxica de uma relação em ruínas, em “Os Enforcados” ele vem de fora, mas com consequências igualmente devastadoras. Ambos os filmes têm coragem para explorar o lado escuro do afeto. Usam seus gêneros com inteligência: o terror como lente do trauma; o suspense como dissecação da moral. No fim, o que essas estreias revelam é que o amor, quando posto à prova, não precisa de monstros nem de mafiosos para se tornar uma ameaça. Basta o humano, suas escolhas e suas obsessões.

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