A autora nascida em Boliqueime, na região portuguesa do Algarve, Lídia, 65 anos, publicou o seu primeiro romance em 1980: “O Dia dos Prodígios”. Com a “A Costa dos Murmúrios” (1988) sobre a experiência colonial na África, se firmou como uma das grandes autoras portuguesas. “O Vale da Paixão” (1998) conquistou diversos prêmios, entre os quais o Prêmio Máxima de Literatura e o Prêmio Jean Monet de Literatura Europeia – Escritor do Ano. O livro “O Vento Assobiando nas Gruas” foi lançado em 2002 em Portugal e em 2007 no Brasil. O livro trata de dois mundos: um contemporâneo e outro mais antigo. Unindo estes mundos está Milene Leandro, que vive um amor, um crime e um silêncio. A obra mais recente em Portugal é “A Noite das Mulheres Cantoras” (2011).
Em entrevista ao Correio do Povo, Lídia fala sobre a história do livro “O Vento Assobiando nas Gruas”, sobre Portugal, a Feira do Livro e a amiga e patrona Jane Tutikian:
Correio do Povo – “O Vento Assobiando nas Gruas” tem quase 10 anos de existência. O que este livro ainda lhe provoca?
Lídia Jorge – Eu confesso que esse livro ainda não está totalmente completo. É um livro em que ainda estou trabalhando, que me desafia a cada vez que é lançado ou traduzido. Tem a figura da Milene. Essa menina não é como as outras. Tem 35 anos de vida, mas é como se tivesse dez. Ela obriga todos à sua volta a se revelar. Para os leitores, fica muito forte a questão da degradação da terra, como o mundo pode se tornar infernal se abusarmos dela. Também está inserida na obra a questão contra o diferente, do extermínio de quem não obedece ao padrão, a injustiça contemporânea.
CP – A sua escrita é muito imagética. Há algum método para chegar a esta riqueza descritiva?
LJ – Não há nenhum método. Não escrevo com esquemas como alguns escritores. Trabalho com imagens que tenham potencialidade de me revelar a história.
CP – Qual é a matéria-prima deste livro?
LJ – É a realidade do Sul da Europa, da Europa mediterrânea, onde a terra é abusada e maltratada, a hiperexploração da terra em Portugal, Grécia, Turquia e Espanha. Também trata dos problemas que afetam os imigrantes de origem africana. Essa perda da inocência, a destruição anímica, diante de uma Europa mercantil, ocorre onde tudo é para fazer dinheiro. Milene tem tudo o que um imigrante tem e sobre ela o mal acontece.
CP – É a sua primeira vez na Feira do Livro. O que estás achando da Feira?
LJ – Estou encantada com a Feira. Ela é espontânea, afetuosa, me lembra uma frase muito comum na Portugal globalizada: “Feel Global, Taste Local” (“Sinta Global, Prove Local). Tenho dito que a Feira tem uma organização própria, europeia deste sul do Brasil. Tem todo o afeto latino e a organização germânica. Além de tudo, as pessoas que acompanham os autores são chamadas de anjos (neste ponto, aponta o seu anjo Beth Nunes). Não tem como não ser uma feira afetuosa.
CP – O afeto da Feira também está presente na figura da sua amiga, a patrona Jane Tutikian?
LJ – A Jane me lembra uma autora italiana, Luciana Stegagno Picchio. Ele tem um temperamento doce. Tem uma cultura e uma erudição que não é exibicionista. É uma embaixadora do Brasil em Portugal e de Portugal no Brasil e também de toda a literatura africana. Creio que ela vai ficar eternamente ligada à Feira com todas essas suas características.
CP – Que autores brasileiros ou gaúchos que gostas de ler ou recomendas?
LJ – Gosto muito de ler Bernardo Carvalho, Luiz Rufatto, Patrícia Melo, Adriana Lisboa e Manoela Sawitski. Creio que as escritoras brasileiras descendem muito de Clarice Lispector, Lígia Fagundes Telles e Nélida Piñon. Outro autor que leio muito e fiquei muito triste este ano com sua morte é Moacyr Scliar. Um dia eu citei o nome dele como um dos grandes escritores brasileiros num evento literário e ele me disse que havia ganhado o Prêmio Nobel, pois era melhor ser lembrado por mim do que ganhar efetivamente o prêmio. Ele também era muito afetuoso. Tem também o Luiz Antônio Assis Brasil, amigo e que faz uma literatura muito ligada às questões históricas do Estado.