Arte & Agenda

Lídia Jorge chega à Feira e destaca o “afeto latino”

Escritora portuguesa tem agenda de atividades nesta quarta que culmina com autógrafos às 20h30min

Lídia Jorge revelou carinho por escritores gaúchos
Lídia Jorge revelou carinho por escritores gaúchos Foto : Tarsila Pereira
Uma das mais destacadas e premiadas escritoras portuguesa da atualidade, Lídia Jorge, está em Porto Alegre para cumprir agenda na Feira do Livro. É a quarta vez que a autora vem ao Rio Grande do Sul, mas é a primeira na Feira do Livro. Lídia conversa com a patrona Jane Tutikian e os jornalistas e escritores Walter Galvani e Cíntia Moscovich sobre a sua obra e a literatura portuguesa, às 19h, na Sala dos Jacarandás do Memorial RS. Às 20h30min, ela autografa "O Vento Assobiando nas Gruas" (Record), na Praça Central.

A autora nascida em Boliqueime, na região portuguesa do Algarve, Lídia, 65 anos, publicou o seu primeiro romance em 1980: “O Dia dos Prodígios”. Com a “A Costa dos Murmúrios” (1988) sobre a experiência colonial na África, se firmou como uma das grandes autoras portuguesas. “O Vale da Paixão” (1998) conquistou diversos prêmios, entre os quais o Prêmio Máxima de Literatura e o Prêmio Jean Monet de Literatura Europeia – Escritor do Ano. O livro “O Vento Assobiando nas Gruas” foi lançado em 2002 em Portugal e em 2007 no Brasil. O livro trata de dois mundos: um contemporâneo e outro mais antigo. Unindo estes mundos está Milene Leandro, que vive um amor, um crime e um silêncio. A obra mais recente em Portugal é “A Noite das Mulheres Cantoras” (2011). 

Em entrevista ao Correio do Povo, Lídia fala sobre a história do livro “O Vento Assobiando nas Gruas”, sobre Portugal, a Feira do Livro e a amiga e patrona Jane Tutikian:

Correio do Povo – “O Vento Assobiando nas Gruas” tem quase 10 anos de existência. O que este livro ainda lhe provoca?

Lídia Jorge – Eu confesso que esse livro ainda não está totalmente completo. É um livro em que ainda estou trabalhando, que me desafia a cada vez que é lançado ou traduzido. Tem a figura da Milene. Essa menina não é como as outras. Tem 35 anos de vida, mas é como se tivesse dez. Ela obriga todos à sua volta a se revelar. Para os leitores, fica muito forte a questão da degradação da terra, como o mundo pode se tornar infernal se abusarmos dela. Também está inserida na obra a questão contra o diferente, do extermínio de quem não obedece ao padrão, a injustiça contemporânea. 

CP – A sua escrita é muito imagética. Há algum método para chegar a esta riqueza descritiva?


LJ – Não há nenhum método. Não escrevo com esquemas como alguns escritores. Trabalho com imagens que tenham potencialidade de me revelar a história.

CP – Qual é a matéria-prima deste livro?

LJ – É a realidade do Sul da Europa, da Europa mediterrânea, onde a terra é abusada e maltratada, a hiperexploração da terra em Portugal, Grécia, Turquia e Espanha. Também trata dos problemas que afetam os imigrantes de origem africana. Essa perda da inocência, a destruição anímica, diante de uma Europa mercantil, ocorre onde tudo é para fazer dinheiro. Milene tem tudo o que um imigrante tem e sobre ela o mal acontece. 

CP – É a sua primeira vez na Feira do Livro. O que estás achando da Feira?

LJ – Estou encantada com a Feira. Ela é espontânea, afetuosa, me lembra uma frase muito comum na Portugal globalizada: “Feel Global, Taste Local” (“Sinta Global, Prove Local). Tenho dito que a Feira tem uma organização própria, europeia deste sul do Brasil. Tem todo o afeto latino e a organização germânica. Além de tudo, as pessoas que acompanham os autores são chamadas de anjos (neste ponto, aponta o seu anjo Beth Nunes). Não tem como não ser uma feira afetuosa.

CP – O afeto da Feira também está presente na figura da sua amiga, a patrona Jane Tutikian?

LJ – A Jane me lembra uma autora italiana, Luciana Stegagno Picchio. Ele tem um temperamento doce. Tem uma cultura e uma erudição que não é exibicionista. É uma embaixadora do Brasil em Portugal e de Portugal no Brasil e também de toda a literatura africana. Creio que ela vai ficar eternamente ligada à Feira com todas essas suas características.

CP – Que autores brasileiros ou gaúchos que gostas de ler ou recomendas?

LJ – Gosto muito de ler Bernardo Carvalho, Luiz Rufatto, Patrícia Melo, Adriana Lisboa e Manoela Sawitski. Creio que as escritoras brasileiras descendem muito de Clarice Lispector, Lígia Fagundes Telles e Nélida Piñon. Outro autor que leio muito e fiquei muito triste este ano com sua morte é Moacyr Scliar. Um dia eu citei o nome dele como um dos grandes escritores brasileiros num evento literário e ele me disse que havia ganhado o Prêmio Nobel, pois era melhor ser lembrado por mim do que ganhar efetivamente o prêmio. Ele também era muito afetuoso. Tem também o Luiz Antônio Assis Brasil, amigo e que faz uma literatura muito ligada às questões históricas do Estado.


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