Leticia Pasuch*
Depois de três décadas de Skank, agora Samuel Rosa quer ser dono de si mesmo. É assim que o músico define o início da sua carreira solo. Seu álbum "Rosa", lançado na última quinta-feira, 27, em todas as nas plataformas digitais, marca um recomeço após o encerramento das atividades da banda mineira em 2023 e a turnê de despedida, que passou por diversas cidades, inclusive Porto Alegre, em duas noites.
“Em 2019, eu comuniquei a minha vontade de criar uma nova frente na minha carreira. Achava que o ciclo do Skank estava muito bem cumprido. Foram três décadas, era hora de seguir um caminho novo, e essa decisão foi tomada muito balizada pelo que eu acho que a banda já tinha cumprido”, resume o vocalista e compositor em coletiva de imprensa.
“Foi-se um ciclo, agora é outro” é o mantra. Samuel acredita que está na hora de se resolver consigo mesmo. “Me deu vontade de ter mais as rédeas na mão, de ser mais o dono das minhas próprias escolhas e responder por elas, pelos erros e acertos, e tomar as decisões sozinho”. Tudo que o cantor doou durante 30 anos para o Skank, quer trazer novamente para essa nova etapa.
Nova banda
Mas o artista reconhece que não tem condições de fazer um disco sozinho. Por isso, contou com uma nova banda. “Eu sabia que eu precisaria de uma banda muito coesa, assim como eu tinha no Skank, para transformar aquilo que seriam minhas novas composições em música, as músicas novas”. O grupo é formado por Doca Rolim (violão e guitarra), Alexandre Mourão (contrabaixo), Pedro Kremer (teclados) e Marcelo Dai (bateria e percussão). Samuel relata que se divertiu muito no processo de construção do álbum com os integrantes. “Com essa banda nova, eu me vi muito motivado a criar coisas novas”.
Doca e Alexandre são antigos companheiros de música: o guitarrista já o acompanhava no Skank e o contrabaixista estava com Samuel na primeira banda de sua vida. Já Pedro Kremer é conhecido tecladista da banda gaúcha Cachorro Grande e Marcelo Dai, talentoso baterista de uma nova geração, apresentado a Samuel por seu filho Juliano. O álbum conta ainda com Daniel Guedes na percussão das faixas “Flores da Rua”, “Me Dê Você” e “Bela Amiga”.
O álbum
A arte da capa do álbum, autoria de Stephan Doitschinoff – quem Samuel já tinha um desejo antigo de trabalhar junto, traz em sua tipografia diversas referências às músicas que estão no repertório. Diversas referências, como os sóis que aludem ao Ouro de Minas Gerais, são conectados com o álbum.
Sem parcerias, cada canção do disco tem um pouco do artista – como diz, é ele mesmo se experimentando. Era mesmo a sua vontade de fazer um álbum autorreferente e particular. “Eu quis muito falar dessa parte mais humana mesmo, de amor e de tudo que implica. Porque junto com amor vem um tanto de coisa, vem a dor, vem alegria vem a tristeza, a frustração, a euforia, a culpa”, cita o cantor.
Samuel lembra que, há muito tempo, não fazia um álbum inteiro de músicas inéditas, apenas composições esporádicas para projetos. Sem a “prática e o traquejo”, nas suas palavras, se perguntava se conseguiria montar um álbum inteiro assim. No fim, deu certo. Se teve surpresas nesse processo, foi apenas uma: “o grande entrosamento e a grande criatividade que eu vi nessa banda nova que eu tô tocando agora”, ele diz.
Samuel chegou a mostrar para sua banda 20 canções e, juntos, chegaram a dez: "Me Dê Você", "Ciranda Seca (Dinorah)", "Não Tenha Dó", "Aquela Hora", "Tudo Agora", "Flores da Rua", "Rio Dentro do Mar", "Segue o Jogo", "Bela Amiga" e "Palma da Mão". A música considerada carro-chefe do álbum é “Segue o Jogo”, entre as preferidas de Samuel. Outra da lista é “Não Tenha Dó”, definida como bossa pop com pitadas de Erasmo Carlos, e Dinorá (Ciranda Seca) – essa, inclusive, foi feita para a personagem da série “Cangaço Novo”, mas também faz uma ode à mulher.
“Minha vida mudou muito e reflete na minha música, por isso não quis falar de nada que não fosse da condição humana do sofrer, do amargo querer. Nesse disco novo, qualquer outro assunto que eu tentasse inserir parecia um corpo estranho no trabalho.”
Nas dez inéditas do disco, o músico investe em elementos brasileiros e reafirma sua marca como compositor. O álbum, nas palavras de Samuel, passeia por lados seus que afloraram ao longo da carreira do Skank, cercado também de elementos da bossa nova. O artista ainda flertou com Turma da Tijuca, Clube da Esquina, Jorge Ben e Erasmo Carlos – quem, segundo ele, tem muito no álbum. “Acho que é um disco bem ensolarado e no quesito estético acho que é disco híbrido, tem essas diferentes vertentes, tem a marca do meu trabalho como compositor”, comenta.
Para os shows da turnê que vinda, Samuel promete manter no repertório um hibridismo: trazer as composições recentes, mas não abandonar as da banda mineira. “Estou gostando também de brincar com umas canções que eu gravei com outros artistas e que não tocava no Skank”, comenta. Os shows começam no segundo semestre deste ano, e passarão por Porto Alegre no dia 28 de novembro.
Samuel frisa que, neste momento atual da carreira, sua ideia é dar justamente continuidade ao legado deixado na banda mineira, não criar uma ruptura. O cantor relata ter sido guiado pelos seus desejos, aflições e incômodos para ter tomado essa importante decisão. “Não foi fácil, não tem sido fácil, mas tem sido muito recompensador. Tem certos momentos que eu acho que eu tô beijando o céu, de tamanha plenitude”, revela.
“É meramente essa vontade de agora, nesse um quarto de vida que ainda me resta, ser dono de mim mesmo. Acho que isso é legítimo, né?”
Confira o álbum: