Arte & Agenda

Liberdade da arte de rua em debate em Porto Alegre

Prefeitura propõe regulamentação das manifestações artísticas em espaços públicos abertos

Lei de 2014 garante que artistas de rua se apresentem em espaços públicos ao ar livre
Lei de 2014 garante que artistas de rua se apresentem em espaços públicos ao ar livre Foto : Fabiano do Amaral / CP Memória
Um importante debate retorna à pauta em Porto Alegre: a liberdade da arte de rua. Depois de diversos movimentos de um grupo de dez vereadores que originaram a Lei 11.586 em 2014, possibilitando aos artistas de rua o direito de se apresentarem em espaços públicos da Capital, o assunto volta ao centro da cena em função de uma proposta de regulamentação vinda da Prefeitura.

Na última semana, o governo local anunciou uma minuta com 24 artigos buscando regrar as manifestações culturais desses profissionais em espaços abertos. Dentre os outros itens, o documento proíbe que os artistas vendam quaisquer produtos sem alvará para comércio ambulante e também veda o uso de instrumentos de percussão e de amplificadores de som no quadrilátero do Centro Histórico (que envolve a área entre a avenida Salgado Filho e as ruas Voluntários da Pátria, Dr. Flores e Marechal Floriano), em parques urbanos e praças da cidade.

A medida, de acordo com o vice-prefeito Sebastião Melo (PMDB), busca preservar os artistas e evitar excessos. “A lei é ótima. Eu acompanhei tudo de perto e sei o quanto ela era necessária. Só que algumas pessoas estão se apropriando indevidamente dela, fazendo tudo de qualquer maneira, trocando os conceitos de arte e comércio. E nós, que estamos do lado dos verdadeiros artistas de rua, não podemos permitir isso”, disse. Ele também ressaltou que as manifestações culturais não podem interferir no cuidado com a cidade ou prejudicar as regras para uma boa convivência.

Com base nisso, o texto da minuta já foi apresentado às vereadoras Fernanda Melchionna (PSOL) e Sofia Cavedon (PT), que participaram da elaboração da Lei, e também analisado pela Comissão de Educação, Cultura, Esportes e Juventude (Cece) da Câmara Municipal em uma sessão nesta terça-feira. Na ocasião, a proposta de regulamentação da Prefeitura foi vista como um contraponto à lei por, em alguns momentos, ir contra a liberdade de expressão artística.

“O governo quer proibir, por exemplo, o uso de tambores, mas os tambores fazem parte da nossa cultura. Podemos citar aqui os costumes da população indígena e até mesmo o trabalho de alguns grandes nomes da percussão, como o Zé da Terreira, o Giba Giba”, reflete Sofia Cavedon, afirmando ainda que a venda dos trabalhos autorais não pode ser simplesmente banida. Segundo ela, as questões que envolvem o barulho recaem em códigos já estabelecidos por especialistas há muito tempo sobre a poluição sonora e seus limites, por isso não se pode simplesmente redefini-los agora.

Para Sofia, o próximo passo, defendido na reunião da Comissão, é que uma possível regulamentação seja feita com base no diálogo com os artistas de rua e leve em conta as suas demandas. O vice-prefeito informou que já foi aprovada a criação de um grupo de trabalho que agregue todas as partes envolvidas e chegue a um consenso sobre as medidas necessárias, mas sempre tendo em vista não permitir distorções da lei. “Nós vamos ouvir, conversar e juntos chegar a um acordo. O que eu posso garantir é que não haverá retrocesso”, concluiu.

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