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“Lion: Uma Jornada para Casa” traz história real sobre busca por origens

Filme concorre em seis categorias do Oscar 2017

Dev Patel e Nicole Kidman atuam no filme adaptado de uma obra literária
Dev Patel e Nicole Kidman atuam no filme adaptado de uma obra literária Foto : Diamond / Divulgação / CP
Índia, 1986. Entre os 798,9 milhões de habitantes do país está o encantador Saroo, protagonista do comovente e no geral consistente "Lion - uma jornada para casa", que reconta a história real do menino. Numa pequena construção, ele mora com a família em condições de miséria. Falta-lhes comida e o leite diário. Para sustentar o clã, a mãe, Kamla, trabalha extraindo pedras, enquanto o irmão Guddu dedica seu tempo a mendigar na estação ferroviária por dinheiro e a varrer os pisos de carruagens de trens. A irmã Shekila é quase um bebê e não pode trabalhar; cabe então a Saroo cuidar dela. Aos cinco anos, o garoto, enérgico e dono de uma personalidade forte, quer sempre acompanhar Guddu em suas peripécias. Mais que laços de sangue, eles compartilham uma relação de companheirismo e idolatria.

Juntos, brincam, conversam, encontram refúgio num abraço Também roubam carvão dos comboios que cruzam o vilarejo em quem moram para que possam comprar mantimentos no insalubre mercado da cidade, onde frutas e moscas se misturam ao fumo e ao pó que sobe da terra com o bater dos pés. Uma mescla de sons, cheiros e odores, combinados ao colorido dos tradicionais turbantes indianos. Nas ruas, vacas caminham livremente ao lado das pessoas. Assim são os primeiros minutos do longa dirigido Garth Davis: recheados de detalhes que oferecem um rico panorama da índia, país mais populoso do mundo e berço de uma miríade de tradições seculares. É nesta conjuntura que, certa noite, Saroo pede para ir trabalhar com o irmão, que ficará fora por uma semana e se mostra relutante com a ideia. A insistência é tanta que ambos partem ruma à estação de trem, onde suas vidas tomarão direções opostas.

Em um infortúnio, eles se desunem. O pequeno procura por Guddu por entre os trens e adormece em um deles. Começa então uma agonizante jornada rumo ao desconhecido e aos desafios da vida. Ele não pode sair, porque todas as portas estão fechadas, e o veículo avança em velocidade crescente. As cenas que seguem são uma construção esplendorosa de direção. Um dos méritos do cineasta é não pender ao proselitismo dramático, e mostrar o sofrimento daquela criança de forma suave e quase poética. São momentos intensos em emoção vibrante mas nunca piegas. Para isso, faz uso de um belo trabalho de Greig Fraser, nomeado ao Oscar de melhor fotografia pelo filme. Fraser explora os mais variados ângulos do vagão, alternando entre plano fechados e abertos. Da janela do trem, as diferentes paisagens da Índia, do rural ao "urbano subdesenvolvido", fornecem um retrato apesar da pobreza circundante.

Somado a isso, a trilha sonora, igualmente indicada à premiação mais importante do cinema, brinca com as sensações dos espectadores. São momentos em que o barulho das rodas sobre os trilhos ecoam mais alto que os gritos de desespero de alguém que perdeu sua família, dando veracidade à situação. Ou então tomam uma dimensão mais teatral com imagens do pequeno protagonista berrando - sem som -, sob o embalo do piano e do violino, instrumentos cujos sons fazem arrepiar. A viagem leva Saroo até Calcutá, mais de 1600 quilômetros distante do ponto de separação. Lá, com sua voz aguda de criança, e abafada pelo caminhar e conversar da multidão que lota a estação, clama por Guddu. Além do tamanho, que o torna quase invisível em meio à tanta gente, há também a barreira linguística. O menino fala hindi, enquanto naquela região, o idioma usado é o bengali. Nesse ambiente, o tratamento seco e a indiferença com que tratam-no causa comoção e revolta.

Perspicaz e inteligente, ele passa a viver nas ruas, o que faz com que desenvolva uma maturidade precoce e um apurado senso de perigo para enfrentar as situações que lhe são impostas. Eventualmente, acaba em um orfanato, onde entra em contato com o abuso e descaso com quem ali mora. Naquela conjuntura inóspita, a vontade é pegar o garotinho e levá-lo para casa, o que felizmente é feito por uma família australina: Sue, interpretada de forma tocante por Nicole Kidman, e John Brierley, vivido por David Wenham, adotam Saroo, dando-lhe, além de afeto, um mundo de oportunidades.

Pode-se dividir o filmes em duas partes. Na primeira, se narra, com poucas palavras, mas a sutileza dos olhares e sons, retocados por enfoque de denúncia social, o momento da separação e da perda da esperança de reencontrar a família. Trata-se de um relato crível sobre a miséria das grandes cidades, sem apelar ao sentimentalismo, conduzido pela naturalidade e simpatia de Sunny Pawar, que vive Saroo. Depois de um ato inicial consistente e de qualidade irrefutável, a segunda parte aborda a vida na Austrália, e abre as portas de um novo universo: a de um lar amoroso e abastado. Além da mudança de país, a dinâmica do filme também sofre transformações.

A segunda metade da trama é dedicada sobretudo à juventude de Saroo e os conflitos que infligem sua mente e que resultam na sua busca ela família biológica com a ajuda do Google Earth. Além da substituição na cinematografia - o novo "ato" tem cores mais vívidas, mas a paisagem urbana se mostra menos interessante -, parece que há uma mudança na direção. O roteiro se torna arrastado em alguns momentos, como no minucioso mapeamento das estações de trem na Índia. São minutos em excesso que se somam a uma certa superficialidade com que os relacionamentos são trabalhados.

No momento em que o Saroo chega à casa dos Brierley, na paradisíaca Tasmânia, ele assimila muito bem a situação de mudança, antes de tudo cultural, e se apresenta com a mesma fofura habitual. Se no tapete vermelho de premiações Nicole Kidman aparenta frieza e falta de sentimento pela inexpressividade, sua atuação em "Lion" é extremamente tocante e calorosa. Quando recebe a criança, é possível perceber o brilho nos seus olhos, os quais transmitem ternura e amor. O mesmo acontece quando Sue e John adotam outro menino indiano, Mantosh, que sofre com as marcas do passado e não tem uma adaptação tão natural e positiva.

"Lion", aliás carrega em seu núcleo uma reflexão sobre a importância da família e de um ambiente propício a desenvolvimento das pessoas enquanto cidadãs e seres humanos. É um alerta, principalmente para um Brasil em que burocracias dificultam a adoção, mesmo com a existência de 36,5 mil crianças vivendo em instituições de acolhimento à espera de uma família para chamar de sua - destas, apenas 6.567 estão aptas a serem adotadas. No filme, é inimaginável pensar onde o destino teria levado os meninos caso os Brierley não tivessem aparecido em suas vidas, mas há fortes indícios de que não prosperariam.

O longa dá um pulo temporal de 25 anos e nos apresenta o ator Dev Patel como a versão crescida de Saroo. Ele é um bom filho, grato e amoroso, mas que compartilha um relação complicada e pouco desenvolvida com o irmão, cuja infância permanece obscura e subdesenvolvidos no script. Assim, como todas em que o protagonista se envolve. Embora próximo da mãe, é ao mesmo tempo distante, porque quase não se falam. Presente, ele é ao mesmo ausente e ainda guarda as imagens de sua infância na memória: as brincadeiras com Guddu, o sorriso de Kamla. Essas lembranças são intensificadas quando está junto aos amigos indianos, em momentos nos quais um sentimento de não-pertencimento é aflorada. E basta apenas um objeto para que sua vida vire de cabeça para baixo e ele comece sua odisseia em busca da família "de sangue"



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