Arte & Agenda

Living Colour brilha na passagem por Porto Alegre e mostra que não cabe em rótulos

Banda norte-americana se apresentou no Bar Opinião na quinta-feira

O alcance de voz de Corey Glover, vocalista do Living Colour, continua impecável
O alcance de voz de Corey Glover, vocalista do Living Colour, continua impecável Foto : Indy Lopes / Preto no Metal / CP

Há algum tempo tem ficado evidente como a nostalgia é um produto que vende bem. Não por acaso, o público de Porto Alegre tem tido cada vez mais a visita de artistas ou grupos, nacionais ou internacionais, que já viveram o seu ápice nos anos 1980 ou 1990, mas que ainda cativam audiências. Se a máquina do tempo não foi inventada (e pela lógica nunca será), a música pelo menos tem a capacidade de transportar o ser humano para memórias passadas. Isso tudo vale para a passagem do Living Colour pela cidade, nessa quinta-feira, no Bar Opinião. Ou, de certa forma, não. Porque, ao contrário de vários outros exemplos recentes, o som da banda que fez um relativo sucesso entre o final dos anos 1980 e a primeira metade dos 1990 não parece datado. Muito pelo contrário.

Um dos grandes méritos da banda é a dificuldade que se tem em colocá-la em uma prateleira exata para descrever a sonoridade. É rock? É funk? É metal? É jazz? É tudo isso e um pouco mais. Ao longo de quase duas horas, o grupo nascido em Nova York tem também a seu favor o tempo. Assistir ao baixista Doug Wimbish e ao guitarrista (e criador do Living Colour) Vernon Reid é como presenciar uma masterclass, tamanho o domínio de ambos em seus instrumentos. O vocalista Corey Glover pode não se movimentar tanto como nos já saudosos videoclipes da época, mas é justamente na postura calculadamente blasé que reside o seu carisma. Fora isso, a voz resistiu bravamente à passagem dos anos.

Sonoridade mais moderna que muita coisa atual

Nem mesmo em seu período mais próspero (a banda tem dois Grammy no currículo), o Living Colour foi uma daquelas bandas de lotar estádio. Na esteira da MTV, teve lá seus hits, mas como isso já faz um bom punhado de tempo, não seria estranho se a plateia – foram mais de mais de mil pessoas no Opinião – reagisse mais apenas nos sucessos. Não foi isso que aconteceu. O grupo ganhou o público desde o começo muito mais na base da qualidade e da entrega do que do fator nostalgia: músicas que beiram os 40 anos, mas que soam mais modernas do que muita coisa que se vê por aí.

Aos poucos vieram os hits: “Ignorance is Bliss”, “Go Away”, “Bi”, “Glamour Boys” e, claro, “Cult of Personality” para fechar. No bis, a calmaria de “Solace of You”, antes de uma cover suingada de “Should I Stay or Should I Go”, do The Clash. A missão estava cumprida. Para muito além do saudosismo.

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