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Livro "Seu Amigo Esteve Aqui" é foco de debate sobre a ditadura

Autora Cristina Chacel participa de painel sobre os Anos de Chumbo neste sábado em Porto Alegre

Autora Cristina Chacel participa de painel sobre os Anos de Chumbo neste sábado em Porto Alegre
Autora Cristina Chacel participa de painel sobre os Anos de Chumbo neste sábado em Porto Alegre Foto : Arthur Puls
A jornalista Cristina Chacel, autora do livro “Seu Amigo Esteve Aqui”, participa de debate neste sábado, às 15h, na Sala Oeste do Santander Cultural. Seu livro narra a trajetória do militante Carlos Alberto Soares de Freiras, o Beto, que transitou pelas fileiras da resistência durante a ditadura militar. A obra, de cunho afetivo, traça a linhagem política de resistência durante o período da ditadura, retratando o panorama ideológico e político no país de 1964 até 1985.

Cristina conta a história de um dirigente do VAR-Palmares que desapareceu misteriosamente em 71 e costura passagens e lembranças dos Anos de Chumbo com outras histórias que revelam uma linhagem política valorosa que atuava nos bastidores para garantir direitos civis. Com a ajuda das lembranças do ex-exilado Sérgio Campos e depoimentos de outras 60 pessoas que viveram na clandestinidade ou dentro de prisões, ela coloca luz sobre esse sombrio intervalo da história do país em que a repressão, a violência e a inobservância pelos direitos do cidadão fez milhares de vítimas.

Em uma entrevista descontraída no Bistrô do Margs, na última sexta-feira, Cristina, Sérgio Campos, Flavia Cavalcanti e Raul Elwanger, junto com Isabela Santiago, gerente da Editora Zahar que publicou a obra, relembram passagens e colocam foco sobre este trabalho, que vai além da tangência do Jornalismo investigativo ao extrair a memória afetiva do pacífico e valoroso povo brasileiro em sua luta contra a opressão.

Cristina lembra que Breno, o personagem principal do livro “Seu Amigo Esteve Aqui”, tinha responsabilidade direta dentro da organização, incluindo a chamada “área estratégica”, em que era elaborado o projeto de ação da resistência. “O ambiente que se apresentava na época era de grande miséria econômica e moral e isso formou as condições que desencadearam a luta armada no país”. Ela destaca que Beto era dirigente da organização clandestina de esquerda VAR-Palmares e desapareceu sem deixar vestígios quando tinha 31 anos. Ele foi preso em fevereiro de 1971 e depois disso nunca mais foi visto. A narrativa começa no governo de João Goulart, passa pelo golpe de 64, pelo AI-5 e culmina com a resistência armada dos anos 70.

Sérgio Campos destaca o cuidado que os editores tiveram para apresentar os fatos ocorridos no período com o máximo de fidelidade e realidade, ressaltando a responsabilidade daqueles que viveram situação de perseguição política ou então como exilados ou presos e torturados, para que suas memórias não fossem borradas por nenhum tipo de rancor. Com lucidez e consternação, ele lembrou episódios em que passou na prisão, inclusive com o companheiro de militância Carlos Araújo, ex-marido da presidente Dilma Rousseff, e também lembrou do dia em que tomaram os depoimentos dela sobre a vida de Beto, companheiro que foi citado textualmente por Dilma em seu primeiro discurso como candidata à Presidência do país em fevereiro de 2010.

Flávia, que também foi militante e ajudou a recuperar a memória dessa obra, lembrou que o título escolhido para o livro é uma frase chave de toda essa história, pois foi dita por um ex-torturador a Inês Etiene, única sobrevivente da chamada Casa da Morte, em Petrópolis (RJ). “Seu amigo esteve por aqui” é uma sentença velada de que Beto teria passado pelo local antes de ser visto pela última vez por Sérgio Campos em Copacabana, no Rio de Janeiro e o indício de que ali ele tivesse sido morto. Lembra que pouco antes do fim do regime, Inês tentou encaminhar seu depoimento por escrito à OAB, com a intenção de denunciar as atrocidades promovidas pelo aparelho repressor, mas foi aconselhada a aguardar o tempo certo para contar detalhadamente sua vida na prisão e citar as pistas do paradeiro do ex-líder da resistência.

O debate contará com a participação da autora, além de Sérgio Ferreira, primo de Beto e personagem do livro; Susana Lisboa, da Comissão de Familiares e Desaparecidos: Carlos Araújo, ex-dirigente da VAR-Palmares e a historiadora Caroline Bauer.


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