Cristina conta a história de um dirigente do VAR-Palmares que desapareceu misteriosamente em 71 e costura passagens e lembranças dos Anos de Chumbo com outras histórias que revelam uma linhagem política valorosa que atuava nos bastidores para garantir direitos civis. Com a ajuda das lembranças do ex-exilado Sérgio Campos e depoimentos de outras 60 pessoas que viveram na clandestinidade ou dentro de prisões, ela coloca luz sobre esse sombrio intervalo da história do país em que a repressão, a violência e a inobservância pelos direitos do cidadão fez milhares de vítimas.
Em uma entrevista descontraída no Bistrô do Margs, na última sexta-feira, Cristina, Sérgio Campos, Flavia Cavalcanti e Raul Elwanger, junto com Isabela Santiago, gerente da Editora Zahar que publicou a obra, relembram passagens e colocam foco sobre este trabalho, que vai além da tangência do Jornalismo investigativo ao extrair a memória afetiva do pacífico e valoroso povo brasileiro em sua luta contra a opressão.
Cristina lembra que Breno, o personagem principal do livro “Seu Amigo Esteve Aqui”, tinha responsabilidade direta dentro da organização, incluindo a chamada “área estratégica”, em que era elaborado o projeto de ação da resistência. “O ambiente que se apresentava na época era de grande miséria econômica e moral e isso formou as condições que desencadearam a luta armada no país”. Ela destaca que Beto era dirigente da organização clandestina de esquerda VAR-Palmares e desapareceu sem deixar vestígios quando tinha 31 anos. Ele foi preso em fevereiro de 1971 e depois disso nunca mais foi visto. A narrativa começa no governo de João Goulart, passa pelo golpe de 64, pelo AI-5 e culmina com a resistência armada dos anos 70.
Sérgio Campos destaca o cuidado que os editores tiveram para apresentar os fatos ocorridos no período com o máximo de fidelidade e realidade, ressaltando a responsabilidade daqueles que viveram situação de perseguição política ou então como exilados ou presos e torturados, para que suas memórias não fossem borradas por nenhum tipo de rancor. Com lucidez e consternação, ele lembrou episódios em que passou na prisão, inclusive com o companheiro de militância Carlos Araújo, ex-marido da presidente Dilma Rousseff, e também lembrou do dia em que tomaram os depoimentos dela sobre a vida de Beto, companheiro que foi citado textualmente por Dilma em seu primeiro discurso como candidata à Presidência do país em fevereiro de 2010.
Flávia, que também foi militante e ajudou a recuperar a memória dessa obra, lembrou que o título escolhido para o livro é uma frase chave de toda essa história, pois foi dita por um ex-torturador a Inês Etiene, única sobrevivente da chamada Casa da Morte, em Petrópolis (RJ). “Seu amigo esteve por aqui” é uma sentença velada de que Beto teria passado pelo local antes de ser visto pela última vez por Sérgio Campos em Copacabana, no Rio de Janeiro e o indício de que ali ele tivesse sido morto. Lembra que pouco antes do fim do regime, Inês tentou encaminhar seu depoimento por escrito à OAB, com a intenção de denunciar as atrocidades promovidas pelo aparelho repressor, mas foi aconselhada a aguardar o tempo certo para contar detalhadamente sua vida na prisão e citar as pistas do paradeiro do ex-líder da resistência.
O debate contará com a participação da autora, além de Sérgio Ferreira, primo de Beto e personagem do livro; Susana Lisboa, da Comissão de Familiares e Desaparecidos: Carlos Araújo, ex-dirigente da VAR-Palmares e a historiadora Caroline Bauer.