A 40ª edição dos Prêmios Goya não foi apenas uma festa: foi uma tabela política, estética e até geopolítica do cinema ibérico. No centro da arena, o duelo entre “Los Domingos”, de Alauda Ruiz de Azúa, e “Sirât”, de Olivier Laxe. De um lado, o drama íntimo, feminino, enraizado no País Basco e nas inquietações psicológicas da juventude. Do outro, o pesadelo civilizacional, árido e apocalíptico, filmado nos desertos magrebinos. A Academia escolheu seu espelho, e sua zona de conforto.
“Los Domingos” venceu melhor filme, melhor direção e melhor atriz para Patricia López Arnaiz. Uma consagração que dialoga com o “milagre” relatado por Berna González Harbour, “mulheres contando novas histórias, deslocando o centro moral da narrativa”. O filme, que já carregava a Concha de Ouro do Festival Internacional de Cine de San Sebastián, consolidou-se como público doméstico, capaz de transformar a vocação religiosa adolescente em debate nacional. Ainara quer o convento; a Espanha quer entendê-la. A Academia quis premiá-la.
Mas toda escolha também é uma recusa. “Sirât”, premiado no Festival de Cannes e indicado ao Oscar, foi empurrado para as categorias técnicas. Melhor som, para Amanda Villavieja, Laia Casanovas e Yasmina Praderas, cuja potência sensorial ecoará na disputa hollywoodiana. Ainda assim, a ausência de Sergi López entre os indicados a melhor ator já anunciou o veredicto: o filme perturbador não seria ocorrido em sua totalidade. A Academia preferiu o drama reflexivo ao abismo.
Na categoria de melhor ator, a vitória de Antonio “Toni” Fernández Gabarre por “Ciudad sin Sueño” reforçou outra tendência: realismo social, corpos periféricos, urgência política. O herói não é o dândi internacional, mas o adolescente cigano ameaçado pela demolição da própria casa. A Espanha olha para dentro e premia esse olhar.
No roteiro, a escolha por narrativas que tensionam família, identidade e exclusão confirma uma safra menos ornamental e mais nervosa. Filmes como “Surda” mostraram que a delicadeza não exclui a radicalidade. E que inclusão pode ser estética, não apenas temática.
Já no prêmio de melhor filme ibero-americano, “Belén: Uma História de Injustiça”, dirigido e protagonizado por Dolores Fonzi, superou o brasileiro “Manas”. A vitória argentina é tão artística, e estratégica. Em tempos de digital e nacionalismos inflamados, as escolhas culturais também carregam recados. No ano anterior, “Ainda Estou Aqui” triunfa na mesma categoria. Agora, o pêndulo oscilou.
O pano de fundo é o Oscar. “Sirât” já está lá, com duas restrições.” Los Domingos”, não. O paradoxo é que o filme mais realizado na Espanha talvez seja o menos exportável; o mais divisivo é o que dialoga com o mundo. Hollywood costuma primar intensidade histórica e risco formal. Se seguir essa lógica, o deserto de Laxe pode ecoar mais alto que o convento basco.
No fim, o Goya foi feminino e feminista, como definiu Gregorio Belinchón. Mas também foi prudente. Entre o grito e a oração, escolhi a introspecção. Resta saber se o Oscar confirmará essa preferência ou se coroará o filme que ousou transformar o colapso contemporâneo em experiência sensorial extrema. Porque, às vezes, a Academia celebra o que nos consola. Outras vezes, o que nos desestabiliza.
Lista de vencedores
“Los Domingos”, de Alauda Ruiz de Azúa (13 indicações, 5 troféus) – melhor filme, direção, roteiro original (Alauda Ruiz de Azúa), atriz protagonista (Patricia López Arnaiz) e atriz coadjuvante (Nagore Aramburu)
“Sirât”, de Oliver Laxe (11 indicações, seis troféus) – melhor fotografia (Mauro Herce), montagem (Cristóbal Fernandez), música original (Kangding Ray), som (Amanda Villavieja, Laia Casanovas e Yasmina Praderas), direção de arte (Laia Ateca Font) e direção de produção (Oriol Maymó)
“Sorda” (Surda), de Eva Libertad (6 indicações, 3 prêmios) – melhor diretora estreante, ator coadjuvante (Álvaro Cervantes) e atriz revelação (Miriam Garlo)
“Tardes de Soledad” (Tardes de Solidão), de Albert Serra – melhor longa documental
“Decorado”, de Alberto Vázquez – melhor longa de animação
“Valor Sentimental”, de Joaquim Trier (Noruega) – melhor filme europeu
“Belén: Uma História de Injustiça”, de Dolores Fonzi (Argentina) – melhor filme ibero-americano
“Maspalomas”, de José Mari Goenaga e Aitor Arregi (9 indicações, um prêmio) – melhor ator protagonista para José Ramón Soroiz
“La Cena”, de Manuel Gómez Pereira (8 indicações, 2 prêmios) – melhor roteiro adaptado (Joaquín Oristrell, Manuel Gómez Pereira e Yolanda García) e melhor figurino (Helena Sanchis)
“Cidade sem Sonhos”, de Guillermo Galoe – ator revelação (Antonio “Toni” Fernández Gabarre)
“Flores para Antônio”, de Isaki Lacuesta e Elena Molina – melhor canção original (“Flores para Antonio”, de Alba Flores e Sílvia Pérez Cruz)
“O Cativo”, de Alejandro Amenábar – mellhor maquiagem-penteado (Ana López-Puigcerver, Belén López-Puigcerver e Nacho Díaz)
“Los Tigres” – Efeitos especiais (Paula Gallifa Rubia e Ana Rubio)
Melhores curtas-metragens
“Angulo Muerto” (ficção)
“Gilbert” (animação)
“El Santo” (documentário)