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Luciana Vendramini: “Quando você é novidade, o telefone não para. Depois, depende de amizades”

A artista diversifica atividades na carreira como produtora e escritora

A atriz Luciana Vendramini prepara livro e documentário
A atriz Luciana Vendramini prepara livro e documentário Foto : Arquivo Pessoal / Instagram / CP

Luciana Vendramini levou muito a sério um conselho, dado pelo pai, de sempre ter um plano B na carreira. “Ele falava: 'Se você fosse advogada, teria milhões de escritórios onde poderia ter oportunidades; mas você está escolhendo uma profissão na qual não tem muitas opções’'', diz ela, em entrevista por telefone ao Estadão, sobre o período em que decidiu que seria atriz.

À época, Luciana deixava em suspenso a carreira como modelo para estudar atuação. Deu certo: ela marcou grandes telenovelas dos anos 1990, como Vamp e Rei do Gado. Mas uma hora as ligações pararam de chegar.

“Quando você é novidade no mercado, seu telefone não para de tocar, como aconteceu comigo”, conta. “Mas, depois que deixa de ser novidade, a carreira passa a depender da amizade e das relações com diretores, produtores e autores.”

Seguindo o conselho do pai, Luciana decidiu que não esperaria o telefone. Hoje, ela pode não estar no horário nobre, mas está à frente de uma das grandes produtoras culturais do Brasil, a Axon Content - que agora, inclusive, obteve os direitos de uma peça de comédia de Lars Von Trier em que Luciana irá atuar.

Também é responsável por uma exposição sobre Marília Mendonça, “Marília Mendonça - Sentimento Louco”, em cartaz no Museu da Imagem e do Som (MIS), em São Paulo.

Luciana ainda tem projetos importantes na vida pessoal. Ela foi uma das primeiras pessoas públicas a falar sobre seu diagnóstico de transtorno obsessivo compulsivo (TOC), quando, nas palavras da atriz, “ninguém sabia o que era o TOC, nem eu mesma”.

A artista agora prepara um livro e um documentário sobre a doença, que “não vai ser cor-de-rosa ou de autoajuda superficial”.

Olhando para trás, a atriz não tem arrependimentos. “Meu pai costuma dizer que fiz uma trajetória com muito esforço e sem escândalos pejorativos. Sempre fui batalhadora”, diz.

Luciana separou um tempo para falar com o Estadão sobre passado e futuro. Leia a entrevista completa abaixo, editada para melhor compreensão.

Vamos começar falando sobre a sua produtora. Como tem sido para você trabalhar desse outro lado da mesa e que tipo de satisfação ser produtora cultural traz em comparação com os palcos?

Nessa época em que a minha produtora nasceu - ela já tem 18 anos -, não era tão fácil vender uma ideia para um projeto. Era bem mais difícil porque não tínhamos os streamings, as plataformas ou as TVs a cabo. Mas eu já sonhava com isso. Uma coisa do meu pai ficou na minha cabeça quando saí de casa para fazer minha carreira acontecer: ele sempre falava que eu tinha que ter um plano B. Dizia que viver só da profissão de ator no Brasil era muito difícil, porque na época tínhamos poucas opções. Ele falava: 'Se você fosse advogada, teria milhões de escritórios onde poderia ter oportunidades; mas você está escolhendo uma profissão na qual não tem muitas opções. Então, tem que começar a pensar em um plano B'. Isso ficou na minha cabeça até hoje.

Em 2010, escrevi um projeto sobre as mulheres do cinema brasileiro [Elas - Mulheres do Cinema Brasileiro]. Pesquisei mais de duas mil mulheres e formatei todo o projeto. Na época da presidente Dilma, veio aquela lei [Lei 12.485/2011] que determinava que a TV a cabo deveria ter 30% de conteúdo brasileiro. Como tínhamos muitos projetos na produtora, saímos na frente. Fomos uma das primeiras produtoras a fazer reuniões com os canais a cabo, como Sony, Fox e Warner. Meu projeto das mulheres no cinema brasileiro foi o primeiro a ser vendido. Fizemos a maior produção brasileira na TV a cabo sobre o tema: 40 documentários num formato dinâmico. Assim começou nossa produtora.

E como foi a montagem da exposição da Marília?

Há um ano e meio, abri outro braço na produtora: a Axon Cultural, voltada para peças de teatro, musicais, cinema, exposições e livros, que era o meu grande sonho desde o início. Quando chegou o projeto sobre a Marília Mendonça, eu disse: 'Vai ter o documentário, o filme, a série e a exposição'. Todos estranharam, mas eu defendi que a exposição fazia todo sentido dentro do legado e da história dela. A Marília desbravou o universo sertanejo com uma postura empoderada de mulheres jovens que vão tomar cerveja com os amigos de igual para igual. Ela não tinha aquele perfil sertanejo da época dos meus pais; ela mandava a real.

Como você se relaciona com a atuação hoje em meio a essa rotina na produtora? Seu desejo de atuar mudou ao longo dos anos?

Não. Mas a nossa profissão de ator é muito difícil. Como comentei, temos poucas emissoras e poucos streamings produzindo conteúdo no Brasil, então não há um leque amplo de opções. Depende-se muito do círculo de amizades. Quando você é novidade no mercado, seu telefone não para de tocar, como aconteceu comigo. Mas, depois que deixa de ser a novidade, a carreira passa a depender da amizade e das relações com diretores, produtores e autores. Se você não está nesse círculo, fica mais difícil, porque, quando você aborda um diretor ou autor, o Brasil inteiro também está abordando.

Fica um networking 'forçado'?

Não tem como fugir, porque, se não fizer isso, o telefone não toca - a não ser que você seja a novidade do momento. Por isso você precisa desbravar, criar seus próprios projetos de forma independente. Eu sou assim: não fico esperando o telefone tocar. Vou atrás, monto meus projetos de teatro, documentários e o que mais for preciso.

Você começou muito jovem, em uma época sem redes sociais, internet ou celulares...

É difícil contextualizar isso hoje! Quando conto para a minha sobrinha que não tínhamos internet, que usávamos bipe e fichas telefônicas em orelhões na rua para retornar ligações, ela acha inacreditável. Mas funcionava e dava certo.

Como você vê a sua relação com a fama no início da carreira e como enxerga isso hoje?

Acho que peguei a melhor época. Pegamos a transição do analógico para o digital. Naquela época, a carreira acontecia naturalmente, não era projetada ou calculada. Acho aquela época analógica mais natural, saudável e verdadeira. Você vê fotos de Elis Regina e de outros artistas com uma simples camiseta; ninguém estava montado com look de grife. Não que isso não seja importante hoje, mas antigamente vivíamos em função do amor pelo trabalho: teatro e TV. Não tínhamos mil preocupações com redes sociais, look e imagem. Hoje é duro ter que contemplar todas essas plataformas.

Principalmente para as mulheres, com a pressão estética das redes sociais...

Exatamente. Ficamos com menos tempo para ensaiar e nos dedicar. Como diria meu pai, é preciso analisar se estamos fazendo uma boa troca do nosso precioso tempo.

Como é para você lidar com isso e com as expectativas do público em relação à sua trajetória? Mudaria algo na forma como conduziu sua carreira?

Na verdade, minha carreira foi sendo conduzida pelo cotidiano. O telefone tocava com convite para uma novela ou peça e eu ia. Não tínhamos uma estratégia calculada. Hoje, competimos também com influenciadores e blogueiros que viraram artistas, em um mercado com as mesmas poucas oportunidades.

Além disso, hoje vivemos a cultura do cancelamento, que acho retrógrada - é cancelamento e censura. As pessoas têm medo de se expor ou dizer o que pensam. É um momento difícil, em que todos têm voz, mas também todos julgam e atacam uns aos outros. Esquecemos que somos seres humanos, que ficamos magoados e precisamos pensar antes de falar. Quanto a isso, sou muito tranquila: o que eu tiver que falar, eu falo. Se tiver que perder seguidores, perco. Acho isso muito superficial para quem tem 40 anos de carreira.

Você considera que acumulou muitas polêmicas na sua carreira?

Meu pai costuma dizer que fiz uma trajetória com muito esforço e sem escândalos pejorativos. Sempre fui batalhadora. Aos 18 anos, quando já trabalhava muito como modelo e lucrava bastante para a minha agência fazendo comerciais, li uma entrevista do diretor de teatro Antunes Filho. Eu assinava três jornais porque tinha sede de informação. Li aquilo e pensei: 'Tudo o que esse cara está falando é o que eu acredito'.

Fui atrás dele no CPT [Centro de Pesquisa Teatral]. A minha agência ficou em pânico, pois eu estava no auge comercial, mas eu queria estudar. Era inadmissível para mim ter 18 anos e não estar estudando, apenas vivendo do sucesso passageiro.

Falando agora sobre saúde mental, você foi uma das primeiras figuras públicas no Brasil a falar abertamente sobre o TOC, em uma época de muito estigma. Como foi esse período?

Na época só se falava em síndrome do pânico. Ninguém sabia o que era o TOC - nem eu mesma quando fui diagnosticada. Fui a livrarias e não havia livros ou estudos disponíveis. Foi uma fase difícil. As pessoas no meio artístico rotulavam ou faziam piadas. A única pessoa no meio artístico que me abraçou sem nenhum preconceito foi o Antunes Filho. Em 2000, quando voltei ao CPT, eu estava muito doente de TOC, pesando 40 kg. Contei para ele, e ele disse: 'Bem-vinda ao seu mundo'. O teatro me acolheu. Estudar lá todos os dias alimentava minha alma e me fortalecia.

Você está escrevendo um livro sobre esse tema. Já tem previsão de lançamento?

Estamos estruturando o livro e um documentário sobre o tema. Não vai ser um livro cor-de-rosa ou de autoajuda superficial; vai mostrar a realidade nua e crua do fundo do poço que um transtorno mental pode causar. Eu nunca me fiz de vítima: me dediquei arduamente ao tratamento, estudando a parte teórica e me tratando com foco e disciplina.

Hoje estou totalmente tratada há mais de 20 anos. O livro e o documentário vão mostrar essa jornada. Costumo dizer: 'Cuidado com os sobreviventes, porque a gente sobreviveu a duras perdas e tem fortaleza'. Hoje realizo palestras compartilhando desde o diagnóstico até a superação, mostrando que todos têm saída. A dor invisível da mente precisa ser olhada com a mesma importância de uma dor física.

Projetando os próximos anos, qual é a sua prioridade entre a produtora, a atuação e a escrita?

Meu objetivo com o livro e o documentário é elucidar e levar informação. Por seis anos apresentei um podcast sobre saúde mental e mente humana, conversando com especialistas. Pretendo retomar o podcast em breve. Na atuação e produção, tenho um projeto muito especial: obtivemos os direitos de uma peça de comédia do diretor Lar Von Trier através da minha produtora. É um texto de humor incrível que aborda a mente humana e os tempos atuais de forma leve. Já estamos em produção.

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