Vasconcellos tem a mesma idade de David Kepesh, 70 anos, e encara o papel como um presente nesta altura da vida, com a bagagem adquirida e a capacidade de memorização. "Contraceno mais com o público que com os personagens. É uma dádiva ter esta chance. À medida que você vai envelhecendo, vai tendo menos papel", afirma. No primeiro monólogo de sua carreira, ele encarna o intelectual que narra sua relação com a jovem Consuelo, que conheceu há oito anos, e o filho Kenny, existentes só em sua memória.
Professor aposentado, ele dá aulas de Crítica Prática para grupos, na maioria femininos, e, na hora certa, aplica um truque: promove uma festa em sua casa, após informadas as notas. Impressionadas com sua biblioteca, as alunas passam a percebê-lo como ser humano, ocasião em que investem no homem por trás do mito. Num desses encontros, ele se impressiona com uma imigrante cubana de 24 anos, apaixonada por arte, a quem compara à obra de Velasquez. Mas desde que transaram pela primeira vez, não parou mais de pensar nela, para quem ligava todos os dias, passando a sentir uma insegurança e ciúmes exagerados. Este apego contrariava o ideal de libertação dos anos 60 que seguia, ao se separar da esposa para viver plenamente a Revolução Sexual, ao contrário de seus amigos, que conciliavam casamento e sacanagem.
Seu filho, hoje com 42 anos, vive o dilema de largar a mulher para ficar com a namorada, e sempre que o vê, manifesta seu rancor pelo passado de abandono. Kenny não o perdoa, por defender os padrões culturais numa sociedade de massa, e não os padrões éticos. Defendia seu pai, tentava entendê-lo e não acreditar que a mãe tivesse razão. Mas achava que ele deveria assumir as responsabilidades de uma vida adulta, ao invés de colocar a sexualidade acima de outros interesses. E, sobretudo, por obrigá-lo, ainda menino, a ser tudo para a mãe.
Seu caso com Consuelo durou pouco mais de um ano e meio e, após o término, Kepesh mergulhou numa depressão brutal por três anos. Abriu mão da liberdade e pensava muito na morte, após perder um de seus melhores amigos, quando recebe uma ligação de sua ex-amada, num Natal. Sem cabelos e abatida, ela revela estar com câncer de mama, aos 32 anos, vendo tudo pela última vez.
Ele, então, a coloca à vontade para procurá-lo quando precisar e quando sentir medo ou insegurança, ficando de plantão ao lado do telefone, a partir daí. Para Alabarse, responsável pela adaptação, a maior diversão do autor é "jogar seus personagens em caldeirões, onde seus posicionamentos morais são colocados em conflito até sobrar apenas o patético, extraindo o máximo de lirismo.