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Músico bósnio que abre o Porto Alegre Em Cena lembra com carinho da Capital

"Fiquei surpreso pois o público conhecia a minha música", diz Goran Bregovic

Músico bósnio que abre o Porto Alegre Em Cena lembra com carinho da Capital
Músico bósnio que abre o Porto Alegre Em Cena lembra com carinho da Capital Foto : Sabine Chate / CP Memória
Nada melhor do que alguém que foi a sensação da edição do Porto Alegre em Cena, em 2001, para abrir o festival de 2010. Além da diversidade proposta por Luciano Alabarse e seus curadores, a 17ª edição traz grandes grupos ou diretores que se destacaram em anos anteriores da mostra. É uma reafirmação do novo misturado ao já consagrado, como o espetáculo de Sankai Juku, “Tobari” (2ª vez); do diretor lituano Eimuntas Nekrosius, o "O Idiota” (4ª vez); de Bob Wilson com “Happy Days” (2ª vez); além de habituais diretores do Mercosul, como o argentino Eduardo Pavlovsky e os brasileiros Celso Frateschi e Enrique Diaz.

Goran Bregovic e sua Weddings and Funerals Orchestra (Orquestra de Casamentos e Funerais) abrem o festival, nesta quarta, às 21h no Teatro do Bourbon Country (Túlio de Rose, 100). O show divulga o seu mais recente CD “Alkohol”, lançado no fim de 2008. O espetáculo ocorre também na quinta-feira, às 21h, mas não há mais ingressos para as duas noites (detalhes no www.poaemcena.com.br ).

O músico e compositor bósnio toca uma mistura de ritmos tradicionais da música da Sérvia e músicas populares ciganas para casamentos e funerais, recheadas de arranjos modernos e pop. O projeto "Alkohol" é composto de dois discos. O primeiro "Sljivovica" foi lançado no fim de 2008 e tem 14 faixas — 13 normais e uma bônus — com destaque para “Jeremija” — onde ele brada antes do início da música o título do disco: Alkohol — “Venzinadiko”, “Gas Gas” e “Na Zandjem Sedistu Moga Auta” e “No Banco de Trás do Meu Carro". O segundo "Champanhe" está sendo produzido e deve ser lançado em 2011.

Bregovic e sua banda formada por 18 músicos, entre seis metais ciganos, duas vozes femininas búlgaras, seis vozes masculinas e quarteto de cordas, deve tocar durante 2h30min e recuperar sucessos executados em 2001, como “Mesecina”, “Kalashnikov”, “Ausencia”, “Te Kuravle” e “Ya Ya (Ringe Ringe Raja)”.

Nascido em 22 de março de 1950, em Sarajevo, na Bósnia e Herzegovina, Bregovic tornou-se famoso como líder da banda Bijelo Dugme e como compositor de trilhas sonoras para cinema (destacando-se os trabalhos para filmes de Emir Kusturica como “Underground - Mentiras de Guerra” e “Arizona Dream”, além de “Borat”, de “Sascha Baron Cohen” e “Rainha Margot”, de Patrice Chéreau.

Nesta entrevista exclusiva ao Correio do Povo, Bregovic fala com carinho do show de 2001, da mensagem do disco "Alkohol", dos novos projetos e de World Music.


Correio do Povo - Os seus discos e as suas músicas, trilhas de filmes ou de espetáculos, sempre carregam mensagens contra a guerra e outros temas. Qual a mensagem do disco "Alkohol", de 2009?
Goran Bregovic - O meu álbum “Alkohol” não tem nenhuma mensagem especial, mas como explico no encarte do CD: "Minha mãe se divorciou do meu pai porque, como a maior parte de oficiais, ele bebeu demasiado sljivovica (conhaque típico da Bósnia à base de ameixa) . Depois que ela o abandonou, ele sofreu o tratamento para deixar de beber. Nos 15 anos seguintes, ele não bebeu. Minha mãe morreu da leucemia e a segunda esposa do meu pai disse-me que durante a doença de minha mãe ele o tinha seguido secretamente algumas vezes. Noite após noite meu pai sentava até o amanhecer embaixo das janelas da sala onde minha mãe morria no 3º andar do hospital militar na Divisão para fumar. Então ele voltou à sua aldeia na fronteira húngara e plantou um vinhedo que produzia mil litros por ano. Ele sobreviveu a morte de minha mãe e bebeu esses mil litros mais ou menos sozinho. Dedico 'Alkohol' aos meus pais".

CP - Você tem alguma lembrança do seu primeiro show em Porto Alegre em 2001?

Goran - Eu me lembro que fiquei surpreso ao ver que havia um grande público para o meu concerto e que eles pareciam conhecer a minha música.

CP - Quais são os seus atuais projetos na música, discos, trilhas para cinema e teatro?
Goran -
Acabo de terminar um novo projeto, uma peça para minha grande orquestra e uma atriz intitulou “Margot, as Memórias da Rainha Infeliz”. O espetáculo teve uma première em Paris, na Basilique Saint Denis, em junho deste ano. Estou trabalhando agora na segunda parte do meu álbum “Alkohol”. A primeira parte "Sljivovica" saiu no ano passado e estou editando agora a segunda parte: "Champanhe". E há projetos sempre diferentes – possivelmente uma nova ópera (Goran é autor de óperas como "Karmen de Bregovic") que estão cozinhando lentamente em fogo brando.

CP - Por que a música do Leste Europeu ficou fora do boom da World Music nos anos 80 e agora onde ela estaria inserida?
Goran - É bom porque o mundo ficou curioso e tem o interesse em uma cultura musical que é muito pequena em comparação com as grandes como Espanha, Itália, Alemanha e Inglaterra. Eu agradeço a essa curiosidade que fez com que a minha música fosse conhecida em todo o mundo.

CP - Como você define a sua música?
Goran - Sou um compositor contemporâneo que escreve a música com uma estrutura sólida e que não é tediosa – o que é bastante excepcional atualmente. Conservei uma faixa hedonista (de dois gêneros) do meu temperamento de rock´n´roll. Escrevo coisas simples de instrumentos infantis ou mais complicados do coro e orquestra, eu sempre tenho divertimento.

CP - Você tem participados de movimentos contra as guerras ou eventos musicais e causas similares?
Goran - Eu estou muito velho agora e demasiado distante dos tempos quando – fora de vaidade – imaginei que a arte podia modificar a ordem de coisas. Mas sou ainda demasiado jovem para perder a esperança!



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