O drama "Manchester à Beira-Mar", dirigido por Kenneth Lonergan, chega aos cinemas nesta quinta-feira abordando questões como perdas e traumas. Lee Chandler (Casey Affleck), uma espécie de faz-tudo de um condomínio em Boston, é forçado a retornar para sua cidade natal, Manchester, após receber a notícia de que seu irmão (Kyle Chandler) morreu.
Além de comparecer ao enterro, ele também precisa cuidar do sobrinho, Patrick, que na prática ficou órfão já que a mãe havia se divorciado do marido e casado com outro homem, de outro lugar. Este retorno fica ainda mais complicado quando Lee precisa enfrentar as razões que o fizeram ir embora e deixar a mesma cidade anos antes. Há assim, as camadas narrativas que vão sendo abertas, permitindo entradas na vida familiar daquele homem e revelando os motivos de sua personalidade introspectiva.
A relação de Lee com o sobrinho é complicada. Ambos, adolescente e adulto, são pessoas difíceis, de pouca fala e teimosos. Enquanto tentam levar uma vida juntos, o tio relembra a próxima relação com Patrick, afeta pelo tempo e que agora é de "conhecidos de longa data". Ao morrer, o pai do garoto deixou testamento no qual entrega a guarda do filho ao irmão. Mas este, embora seja perceptível que nutre afeição pelo sobrinho, hesita em transformá-lo em seu filho substituto.
Há algo que angustia aqui - e faz parte do tom geral do filme: as coisas nunca saem da maneira como esperamos, em especial quando se trata de um cinema conhecido por seu simplismo. Estamos habituados a um ritmo de roteiro que sempre contrapõe tensão e alívio, sufoco e respiro. Em "Manchester" não é assim. As relações humanas parecem travadas por alguma coisa que não percebemos e essa situação é mantida sem qualquer catarse à vista. É, portanto, um longa verdadeiro e honesto, que trata de perdas sem eufemismo e mostra a imprevisibilidade à qual estamos sujeitos.
A estratégia do cineata Kenneth Lonergan parece ser esta: manter os sentimentos em suspense, como se congelados. Não é gratuito ambientar a trama num clima marítimo e frio, expresso numa fotografia de cores desmaiadas. Uma foto invernal, em que as cores de pouca saturação levam ao espectador a sensação das temperaturas gélidas. Que, claro, são a maneira pictórica de falar da frieza emocional do personagem, que podemos entender em determinado momento como um dado de caráter, mas que depois descobrimos ter outra origem.
Não deve ter sido muito fácil manter todos esses elementos sob controle, ainda mais quando se trabalha de uma indústria acostumada com um final dicotômico: o alcance da felicidade ou a subida do drama. Também deve ser anotado o fato de Casey Affleck, que ganhou o Globo de Ouro de ator dramático pelo papel, interpretar de maneira tão contida um homem de intenso drama pessoal. E isso numa cultura cinematográfica que valoriza demais a dinâmica emocional, a expressão paroxística. Talvez o fato de Lonergan ter vindo do meio teatral explique tratamento tão sofisticado quanto surpreendente.
"Manchester à Beira-Mar" é, até agora, entre os filmes que se candidatam ao Oscar, o que exibe envergadura mais madura, tanto do ponto de vista temático quanto da linguagem cinematográfica. Um roteiro que prende e não deixa ir, assim como os traumas do passado de Lee. Não está onde se espera e não faz qualquer concessão comercial aparente. É um longa para adultos, uma faixa de público que vem sendo progressivamente descartada por uma indústria preocupada em oferecer produtos para adolescentes de todas as idades. Em todos os sentidos, é um ponto fora da curva.
Assista ao trailer:
"Manchester à Beira-Mar" é estudo sobre a dor que não passa com o tempo
Filme estrelado por Casey Affleck é candidato ao Oscar e chega aos cinemas nesta quinta