“Complexo de vira-lata” (editora Civilização brasileira), novo livro de Marcia Tiburi, é obra fundamental para o brasileiro compreender como e por quais motivos nossa nação é impactada pela colonização, não somente aquela que veio com Colombo e Cabral às Américas, mas também a subjetividade por trás de ações colonizadoras que sequestram identidades, a história, utpoias e desejo de luta por uma vida melhor nos colonizados. Para superar a humilhação que se instaurou em nós, como propõe Marcia Tiburi nesta obra, é essencial saber como isso se deu em nossa História, como e por que funciona. A autora sentencia: “Está na hora de superá-los”.
“Talvez o mais dificil sentimento que exista seja a dor da humihação. Ela é uma espécie de morte inter,a algoque impede alguem de viver. De se realizar como pessoa, de perceber o valor da vida. Humlhado, niguem consegue consegue se reconhecer como um sujeito da cidadania. É quando um ser humano não se sente gente. É difícil falar desse assunto sem falar em feridas”, diz Marcia Tiburi. Já sabemos, como brasileiros, que o sofirmento é parte da realidade. Nelson Rodrigues cunhou, no passado, a expressão “complexo de vira-lata”, presente até hoje no vocuabulário do brasileiro – muito embora muita s pessoas não compreendam seu significado. Em 1958 o termo surgiu numa crônica sobre a inexplicável derrota da Seleção Brasileira na Copa de 1950. Tínhamos tudo para vencer e ainda assim fomos derrotados. O time brasileiro não teve autoestima para vencer, defendeu o dramaturgo e cronista. A expressão, portanto, designa a interiorização subjetiva que impede alguém de se tornar dono de seu destino. É o que defende Marcia Tiburi, ao explorar o conceito para explicar a humilhação nacional brasileira.
Autora dos best-sellers "Como conversar com um fascista" e "Feminismo em comum", e de mais de 20 outros livros, Marcia Tiburi lançou-se em uma investigação sobre aquilo que é presença constante em todo indivíduo que vive em países como o Brasil: a colonização e seus efeitos. Em um processo de pesquisa e escrita de cerca de cinco anos, o resultado é o "Complexo de vira-lata", termo que “empresta” de Nelson Rodrigues – inicialmente, a obra levaria o título de Complexo de Colombo, conceito também dissecado no livro – para explicar em poucas palavras a sensação subjetiva que traz a colonização ao indvíduo. A humilhação, a falta de “raça”, de identidade, a formação de castas – presente até hoje em padrões nas relações entre poder e sociedade como colonizadores e colonizados.
“Ninguém assume, espontaneamente, o lugar de vira-lata que leva pontapés sem se defender. A construção desse lugar tem história e corresponde a seculares manobras de violência e poder”, alerta Marcia. “A humilhação é um circuito que implica em humilhar e ser humilhado, que leva tantas pessoas a se identificarem com o pior, em termos morais, éticos, estéticos e políticos. Não há dúvida que nossas escolhas têm relação com a imagem que fazemos de nós mesmos a partir de humilhações que tivemos”, defende a autora. Por isso, essa obra, apresenta uma necessária reflexão sobre nossos traumas. Para superar a humilhação que se instaurou em nós, como propõe Marcia Tiburi nessta obra, é essencial saber como isso se deu em nossa História, como e por que funciona. A autora sentencia: “Está na hora de superá-los”. A escritora e filósofa, que também é artista plástica, está com ateliê montado em Paris, para onde exilou-se após sofrer ataques e ameaças, preparando-se para uma exposição. O desenho de capa é de sua autoria, de uma série de vira-latas cor caramelo.
Fato é, que alguém que se sente inferior torna-se mesmo incapaz de se superar, de se transformar em sujeito de suas vitórias e derrotas, restando o sentimento de rejeição. Mas, qual a relação do que cunhou e observou Nelson Rodrigues nos anos 50 e a humilhação brasileira que vivemos até hoje? É fato que povos inteiros podem ser vítimas da humilhação. Ela é a mais básica e antiga tecnologia de opressão, do poder e da violência, especialmente na esfera da vida social e política. Um retrato do Brasil de hoje. A humilhação está presente em inúmeros gestos, como na forma como as pessoas se posicionam diante de outras e agem por se considerarem melhores que outras. É a lógica da medida e da hierarquia, típica da sociedade capitalista em que vivemos.
A tese fundamental desta obra é que a humilhação é uma práxis, ou seja, uma ação que é, ao mesmo tempo, uma produção mental, teórica e linguística, emocional e afetiva. É ela que sustenta a guerra de classes dos ricos contra os pobres e explica a submissão e a obediência de todos diante das injustiças até hoje.