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Meio século sem Guimarães Rosa deixa dúvidas da linguagem como arte narrativa

Para crítico literário, o autor fez da linguística um elemento de sua ficção

Meio século sem Guimarães Rosa deixa as dúvidas da linguagem como arte narrativa
Meio século sem Guimarães Rosa deixa as dúvidas da linguagem como arte narrativa Foto : Academia Brasileira de Letras / CP Memória
João Guimarães Rosa faleceu há 50 anos. Sua obra testamentária, o livro de contos Tutameia (1967), publicada poucos meses antes de sua morte, está completando este meio século. O ficcionista de “Grande Sertão: Veredas" (1956) faz de “Tutameia” seu texto-testamento: 40 histórias curtas e quatro prefácios-ensaio que são histórias sobre o próprio processo de escrever.

Na sua visão do sertão brasileiro, Rosa pode ser pensado junto com aquele universo de Graciliano Ramos, um sertão realista, e aquele vislumbrado por Euclides da Cunha, cartesiano apesar de tudo. No último prefácio, “Sobre a escova e a dúvida”, o narrador anota: “Meu duvidar é da realidade sensível aparente — talvez só um escamoteio das percepções. Porém, procuro cumprir. Deveres de fundamentos da vida, empírico modo, ensina: disciplina e paciência. Acredito ainda em outras coisas, no boi, por exemplo, mamífero voador, não terrestre. Meu mestre foi, em certo sentido, o Tio Candido.” Quem é Candido? Nos parágrafos seguintes, o prefaciador fala “num pequeno fazendeiro, suave trabalhador, capiau comum, aninhado em meios-termos, acocorado”; mas se impõe pensar no grande pensador da literatura brasileira no século XX, o mestre tio Antônio Candido.

Guimarães Rosa não logra nunca escrever dentro do padrão comum de texto. “Propor uma reflexão a respeito do caráter subversivo da obra de Guimarães Rosa”, lembrou a escritora gaúcha Alessandra Rech em seu luminoso ensaio Na entrada-das-águas, amor e liberdade em Guimarães Rosa (2010). No conto “Barra da Vaca” está, em abertura: “Sucedeu então vir o grande espírito entrando no lugar, capiau de muito longínquo: tirado à arreata o cavalo raposo, que mancara, apontava de noroeste, pisando o arenoso.”

Um profeta do idioma, mergulhado naquilo que o sertão tem de arcaico e futurista, o narrador de Rosa ataca em “Faraó e Água do Rio”: “As tachas pertenciam à Fazenda Crispins, de cem anos de eternidade.” A expressão, que começa com “cem anos”, conduz ao seguinte: 1967 foi também o ano da publicação de outro monumento da literatura latino-americana, “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel García Márquez. No primeiro prefácio, o obscuro “Aletria e Hermenêutica”, a primeira frase ficou clássica: “A estória não quer ser história. A estória, em rigor, deve ser contra a História. A estória, às vezes, quer-se um pouco parecida à anedota.”

Fazendo da linguística um elemento de sua ficção, Rosa é hoje bastante combatido por alguns linguistas, que lhe exprobram erros etimológicos. Então a questão: Rosa se vale da linguística como dúvidas para sua arte de narrar e amplia sua liberdade de invenção para além da possível ciência da linguagem; demais, pode-se perguntar: seria a linguística uma ficção travestida de verdade científica? Há mesmo isso, ciência da linguagem? Cinquenta anos depois de seu último suspiro, Rosa e sua complexa obra-testamento, “Tutameia”, se põem como anteparos que ofuscam e iluminam, barrocamente, nossa maneira de enxergar as coisas e as letras por aqui.

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