Durante 34 anos, a professora Tânia Rösing, de 67 anos, foi o símbolo de uma atividade que transformou a formação de leitores e a noção de festas literárias pelo país, a Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo, iniciada em 1981. A Jornada foi cancelada este ano. Tânia foi afastada, e a Universidade de Passo Fundo (UPF) anunciou Fabiana Burlamaque como a nova coordenadora das jornadas. Mas Tânia segue à frente do Centro de Referência de Literatura e Multimeios da UPF, trabalha como docente da Universidade, onde coordena o “Livro do Mês” e estará à frente do 13º Seminário Internacional de Pesquisa em Leitura e Patrimônio Cultural, que mantém a chama da Jornada acesa este ano. O seminário será realizado de 28 de setembro a 1º de outubro em Passo Fundo e São Paulo, patrocinado pelo Itaú Cultural, com Roger e Anne-Marie Chartier, Regina Zilberman, Edvaldo Souza Couto, Lúcia Santaella, Francisco Marinho e Ignácio de Loyola Brandão. Em entrevista ao CS, Tânia fala da paixão pela leitura e formação de leitores e do seu tempo à frente da Jornada, entre outros temas.
CS — Fora da Jornada, como está sendo a sua trajetória?
Tânia — Deixei de ser a coordenadora da Jornada por determinação do reitor da UPF, mas meu compromisso com a vida, a criatividade e as ideias continua. As pessoas que vão coordenar a Jornada vão adotar outro modelo. O meu trabalho vai continuar na ampliação de outros relacionamentos, de outros projetos que me forem solicitados. Eu fico contente, quando vejo que as jornadas e festas literárias começaram a se desenvolver no Brasil, a partir do nosso exemplo em 1981. Não se falava em nada disto no país. Lembro de ir a Badajoz, Espanha, em 2001, e constatar que o Centro de Referência de Literatura e Multimeios da UPF foi inspiração para a construção do mesmo Centro por lá. Continuo à frente do “Livro do Mês” da UPF. Hoje nas nossas práticas leitoras, nós envolvemos os diferentes textos literários, suportes, a rede, o cinema, a música. As pessoas que estão à frente de ações de leitura precisam ser melhores leitores. Desde 2001, a Jornada fez a primeira discussão pública da tecnologia: “2001 — Uma Jornada à Galáxia de Gutenberg. Da Prensa ao E-Book”. Acharam que a gente era meio doido por discutir o tema. Eu consegui trazer uma réplica da prensa de Gutenberg. São três no mundo e uma delas veio a Passo Fundo, com apoio da Embaixada da Alemanha, para ficar ao lado do e-book.
CS — Como te defines?
Tânia — Eu sempre procurei pensar grande, pensar o desafio, pensar o impossível. O meu propósito é contribuir, é ver estas ideias sendo praticadas, se transformando em realidade. A minha formação sempre foi preocupada com leitores. Eu tive estímulo na minha família, na escola em que estudei, sempre achei que era uma oportunidade de recheio do interior das pessoas. Quando decidi ser professora, levei comigo esta vontade de fazer ações diferenciadas para atingir este objetivo. Eu sempre achei que a gente deveria fazer coisas para aproximar leitores e escritores, o que era difícil em Passo Fundo, distante 300 km da Capital. Sempre defendi a autenticidade de princípios. Meus pais me diziam que a gente deve agradecer a dádiva da vida e retribuir com algo significativo. Ao longo de 44 anos na UPF e 34 na Jornada, me cerquei de pessoas sintonizadas com estes projetos. Por isso eu ouvia as sugestões e as colocava em prática. A Jornada foi um projeto coletivo, que foi se ampliando à medida que fomos avaliados, criticados e desafiados a fazer coisas novas. Não me arrependo em nada do que fiz, pois foi com paixão, vontade fazer os outros serem tocados pela leitura.
CS — Qual a sua posição sobre literatura contemporânea?
Tânia — O primeiro a ser feito é saber do que os jovens gostam. Dois jovens foram a Passo Fundo: André Vianco e o Raphael Montes, além da Carina Rissi. Os leitores ficam enlouquecidos, perguntam, lotam a plateia. A gente tem que verificar qual é o público. Nós temos muita gente escrevendo, nem todo mundo tem a qualidade necessária, mas ele tem a qualidade que é apreciada de falar a linguagem que o público jovem quer. Os jovens vão atrás destes livros sem nenhuma indicação da universidade, que não trabalha estes livros. Não era o nosso caso na Jornadas, pois trazíamos estes autores no nosso “Livro do Mês”. Temos que estar atentos ao que está sendo produzido e para o que está sendo lido, sem se ater só ao que a crítica ou academia valoriza.
CS — Poderia nos contar uma história inusitada da Jornada?
Tânia — Na 1º Jornada, em 1981, algumas pessoas questionaram o nível dos convidados. Eram amigos de Josué Guimarães: Mario Quintana, Armindo Trevisan, Carlos Nejar, Cyro Martins, Sérgio Capparelli, Deonísio da Silva, Antonio Carlos Resende. O reitor me perguntou por que convidar o grupo de literatura gaúcha e não o de gauchesca, como Paixão Côrtes e Barbosa Lessa, mas referendou os convidados. O Josué era um cara alegre, informal, e a primeira coisa que ele me disse foi: “Não deixa a academia tomar conta, não deixa ficar com tom sisudo”. Foi a primeira grande figura do imaginário da Jornada, seguido pelo Ignácio de Loyola Brandão, que foi a primeira vez em 1985 como convidado e, em 1988, assumiu como coordenador dos debates. Outra história foi confronto do Alberto Manguel e da Beatriz Sarlo com a editora inglesa Kate Wilson. A inglesa apresentou um aplicativo, e Manguel disse que não estimularia a leitura, mas sim a deformaria, no que foi apoiado pela Beatriz. Foi um clima tenso, mas dentro da pluralidade característica da Jornada.
CS — Como as teorias literárias podem ser aplicadas nos dias de hoje?
Tânia — O livro não vai terminar. Para o envolvimento com o livro, a característica principal é o ato solitário de ler e em profundidade. Primeiro a gente lê as cidades. Depois, vê entre as crianças e jovens quem tem ou não um livro na mão, mas há o celular. São jovens que têm um potencial que precisa ser ampliado. Existe a teoria literária que é a estética da recepção, no método sistematizado pela Maria da Glória Bordini e a Vera Aguiar, determinando que primeiro se deve levantar as expectativas das pessoas; segundo, atender o que elas querem; e terceiro, romper com este estado de preferência, fazendo a ampliação e o questionamento. Somos pessoas com história, e o leitor precisa ler utilizando sua referência. O celular não é só para a comunicação. Pode ser utilizado para a inter-relação com outras artes. É importante ser um apreciador de música, teatro, cinema, pintura, navegar por museus. Poder analisar “Las Niñas”, de Velásquez, e o mesmo quadro criado por Picasso. O leitor ubíquo tem inúmeras possibilidades, acesso a sites e a paciência da pesquisa na Web.
Meu compromisso com a criatividade e as ideias continua, diz Tânia Rösing
Ex-coordenadora da Jornada de Literatura fala ao CS sobre paixão pela leitura e planos