Correio do Povo - Partindo da premissa cortazariana (de Julio Cortázar) de que o conto vence por nocaute (e o romance por pontos), quais os principais golpes desferidos por "A cidade ilhada"?
Milton Hatoum - Um conto deve ter a força que os romances têm nas primeiras linhas. Por isso é uma narrativa latente e densa. Logo de cara, a imaginação e a experiência do leitor se deixam envolver por um conto. Não sei se consegui esse efeitos nos textos de "A cidade ilhada", mas todos eles mantêm algum elo com a minha experiência e também com a leitura. Em quase todos há um narrador em trânsito, ou um narrador expatriado, que já está presente no meu primeiro romance ("Relato de um Certo Oriente"). Acho que esse narrador tem a ver com a experiência nas cidades em que vivi. Talvez Manaus esteja situada no centro dessa geografia difusa. Ou é uma espécie de espiral sem centro. Um dos contos – "Bárbara no inverno" – é ambientado em Paris. Esse conto é o núcleo do meu próximo romance. "Manaus, Bombaim, Palo Alto" foi lido pela primeira vez em Porto Alegre, durante o Congresso internacional da Abralic, em 2004. Mas os golpes desferidos pertencem à imaginação do leitor. Só o leitor pode falar do impacto ou da surpresa de uma ficção.
CP - A participação de Milton Hatoum na Feira do Livro de Porto Alegre é sempre considerada essencial pelos jornalistas, público e os organizadores da Feira. Gostaria que você analisasse a importância desta feira, deste tipo de evento literário a céu aberto, no qual há uma diminuição das distâncias entre autores e leitores.
Hatoum - Acho que essa Feira é um dos eventos literários mais importantes do Brasil. Um evento grandioso na forma e no conteúdo. É importante porque dá destaque à literatura, numa época em que qualquer texto banal tem pretensões literárias e, não poucas vezes, engana o público leitor. De um modo indireto, Porto Alegre está relacionada com a minha formação de leitor. Em Manaus eu lia livros editados pela Globo. Livros que um dos
meus tios comprava. Aliás, essa é uma cena do Cinzas do Norte: “os livros que vinham do Sul”. Durante a Feira, o contato direto do autor com os leitores é uma boa oportunidade para falar sobre literatura, os fundamentos e a construção do romance, questões técnicas que envolvem o narrador, a personagem, a metáfora, etc. E como a
experiência de vida é filtrada e inventada pela linguagem. Acho que esses serão alguns dos temas do diálogo com o Ostermann (Ruy Carlos).
CP - A sua obra recebeu um site com grande qualidade com notícias, enumeração e sinopse das obras, entrevistas, teses, traduções etc. O que vem a representar esta sistematização no desenvolvimento e acompanhamento da sua
carreira?
Hatoum - É um site dirigido principalmente para a pesquisa. Vários leitores, estudantes e professores me pedem ensaios, teses, artigos, entrevistas... Então decidi juntar os textos publicados no Brasil e no exterior e colocá-los no
site www.miltonhatoum.com.br, que ainda está incompleto.
CP - Conte-nos um pouco sobre os autores e obras que você está lendo.
Hatoum - Li há pouco tempo um ótimo livro do crítico inglês James Wood. O título é “Como funciona a ficção”. Escrevi o texto da orelha. Vai sair pela CosacNaify. Wood analisa as questões mais relevantes do romance, questões referentes à forma, à feição estética da obra ficcional. Leio também a obra de autores que, de alguma
maneira, aparecem no romance que estou escrevendo: "Beckett, poesia e ficção de Cuba".