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Morre Antonio Cicero, poeta e acadêmico, aos 79 anos

O escritor, imortal da Academia Brasileira de Letras, submeteu-se a um procedimento de eutanásia, na Suiça

Antonio Cicero era um imortal da Academia Brasileira de Letras
Antonio Cicero era um imortal da Academia Brasileira de Letras Foto : Eucanaa Ferraz / Divulgação / CP Memória

Antonio Cicero, poeta e acadêmico, morreu aos 79 ano, nesta quarta-feira, dia 23, na Suiça, na companhia de seu marido Marcelo Pies. Ele convivia com um diagnóstico de Alzheimer. A informação foi confirmada pela Academia Brasileira de Letras (ABL). Cicero optou pela eutanásia, e estava na Suíça, onde a prática é permitida.

"O que ocorre é que minha vida se tornou insuportável. Estou sofrendo de Alzheimer. Assim, não me lembro sequer de algumas coisas que ocorreram não apenas no passado remoto, mas mesmo de coisas que ocorreram ontem. Exceto os amigos mais íntimos, como vocês, não mais reconheço muitas pessoas que encontro na rua e com as quais já convivi. Não consigo mais escrever bons poemas nem bons ensaios de filosofia", ele escreve em sua carta final endereçada a amigos. Ele escreve ainda: "Espero ter vivido com dignidade e espero morrer com dignidade". Leia abaixo a íntegra da carta.

Carreira

Antonio Cicero é o sétimo ocupante da cadeira nº 27 da ABL, eleito em 10 de agosto de 2017, na sucessão de Eduardo Portella. "O que é um poema imortal? Um poema imortal é um poema cujo valor não depende de fatores externos a ele: um poema, portanto, que vale por si", declarou ele em seu discurso de posse.

O poeta, natual do Rio de Janeiro e nascido em 6 de outubro de 1945, é autor de livros de ensaios filosóficos, como "O mundo desde o fim" (Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1995) e "Finalidades sem fim" (São Paulo: Companhia das Letras, 2005), e dos livros de poemas "Guardar" (Rio de Janeiro: Record, 1996), "A cidade e os livros" (Rio de Janeiro: Record, 2002) e, em parceria com o artista plástico Luciano Figueiredo, "O livro de sombras: pintura, cinema e poesia" (Rio de Janeiro, + 2 Editora, 2010).

Irmão da cantora Marina Lima, o escritor teve a trajetória na literatura cruzada com o universo da música. Escreveu letras de canções como "Fullgás” e “Pra Começar” em parceria com a irmã e também colaborou com outros artistas, como João Bosco, Adriana Calcanhotto e Lulu Santos. Com Lulu, foi coautor do sucesso “O Último Romântico”. Segundo Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad), ele tinha 130 composições e 40 gravações cadastradas no banco de dados da gestão coletiva.

Cicero começou a cursar filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e, na sequência, estudou no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ele, porém, terminaria seus estudos em Londres, na Universidade de Londres, depois de precisar se mudar para a capital britânica em 1969 por problemas políticos.

Ele lançou, em 1996, o CD Antonio Cicero por Antonio Cicero, em que recita seus poemas, e participou, em 2002, de uma coletânea de quatro CDs feita com nomes como Gabriel o Pensador, Chico Buarque, Ronaldo Bastos e Fernando Brant em homenagem a Carlos Drummond de Andrade.

Carta de despedida de Antonio Cicero


Queridos amigos,

Encontro-me na Suíça, prestes a praticar eutanásia. O que ocorre é que minha vida se tornou insuportável. Estou sofrendo de Alzheimer. Assim, não me lembro sequer de algumas coisas que ocorreram não apenas no passado remoto, mas mesmo de coisas que ocorreram ontem. Exceto os amigos mais íntimos, como vocês, não mais reconheço muitas pessoas que encontro na rua e com as quais já convivi. Não consigo mais escrever bons poemas nem bons ensaios de filosofia. Não consigo me concentrar nem mesmo para ler, que era a coisa de que eu mais gostava no mundo. Apesar de tudo isso, ainda estou lúcido bastante para reconhecer minha terrível situação. A convivência com vocês, meus amigos, era uma das coisas - senão a coisa - mais importante da minha vida. Hoje, do jeito em que me encontro, fico até com vergonha de reencontrá-los. Pois bem, como sou ateu desde a adolescência, tenho consciência de que quem decide se minha vida vale a pena ou não sou eu mesmo. Espero ter vivido com dignidade e espero morrer com dignidade.

Eu os amo muito e lhes envio muitos beijos e abraços!

*Com informações do Estadão Conteúdo.

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