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Morre aos 78 anos o cineasta David Lynch

A morte do diretor foi anunciada por sua família nas redes sociais oficiais do artista

Cineasta David Lynch durante o 52º Festival de Cinema de Cannes
Cineasta David Lynch durante o 52º Festival de Cinema de Cannes Foto : CHRISTOPHE SIMON / AFP / CP MEMÓRIA

O diretor e roteirista americano David Lynch, que mudou o mundo do cinema com uma visão artística voltada para o sombrio e surrealista em filmes como “Blue Velvet” e “Mulholland Drive” e na televisão aberta com “Twin Peaks”, faleceu aos 78 anos.

Ao site americano de fofocas, TMZ, um membro da família afirmou que Lynch faleceu na quarta-feira, dia 15, na casa de sua filha, onde estava hospedado durante os devastadores incêndios florestais em Los Angeles

Lynch revelou ainda em 2024 que havia sido diagnosticado com enfisema após uma vida inteira fumando e provavelmente não conseguiria mais sair de casa para trabalhar. A família do diretor anunciou sua morte em uma postagem no Facebook , escrevendo: “Há um grande buraco no mundo agora que ele não está mais conosco. Mas, como ele diria, "Fique de olho no donut e não no buraco"”.

O enfisema pulmonar é uma doença degenerativa causada pelo tabagismo e/ou pela ingestão de toxinas presentes no ar poluído. Ela se caracteriza pela destruição do tecido dos pulmões, o que faz com que a pessoa não consiga respirar de forma eficiente.

David Lynch foi indicado a quatro Oscars, como diretor por “Veludo Azul” (1986), “Mulholland Drive” (2001) e “O Homem Elefante” (1980), que também lhe rendeu uma indicação para roteiro adaptado, Lynch finalmente recebeu um Oscar honorário em 2019.

Nascido em Missoula, Montana, em 1946, Lynch foi para a faculdade de arte na década de 1960 e fez seu primeiro curta experimental, “Six Men Getting Sick”, enquanto era aluno da Pennsylvania Academy of Fine Arts. Lynch mudou-se para Los Angeles em 1971 e estudou cinema no AFI Conservatory, onde começou a filmar seu primeiro longa, “Eraserhead".

Cineasta cult mundial

Desde a intrigante obra sadomasoquista "Veludo Azul" (1986) até o thriller lésbico "Cidades dos Sonhos" (2000), Lynch se tornou um cineasta cult mundial, com seus retratos perturbadores da vida americana que influenciaram diretores como Quentin Tarantino e os irmãos Coen.

Mas talvez seja lembrado principalmente pela fascinante e inovadora série de televisão "Twin Peaks", pioneira do gênero antes da era do streaming.

Atração monstruosa

Filho de pai cientista e mãe professora e nascido em Montana (norte) em uma família grande (quatro irmãos), Lynch teve uma vida errante. Descobriu sua paixão na faculdade de Belas Artes da Pensilvânia nos anos 70, onde começou a pintar e a filmar curtas-metragens.

Desde o início, suas obras apresentavam personagens estranhos e marginais. Seu primeiro longa-metragem, "Eraserhead", filmado em 1977 em preto e branco, tratava de um bebê deformado monstruoso.

Lynch levou cinco anos para filmá-lo devido ao orçamento limitado. O cineasta ambientou a história no deprimido cenário industrial de Filadélfia e a impregnava com uma calma inquietante que se tornaria uma de suas marcas registradas.

Poucas pessoas que assistiram à obra a esqueceram. Nem mesmo outro mestre em ascensão de Hollywood, Stanley Kubrick, escondeu sua admiração. Lynch continuou sua obsessão por retratar deformidades humanas em "O Homem Elefante", dramatizando a trágica vida de Joseph Merrick, que nasceu com uma grave deformação física.

Um John Hurt irreconhecível no papel principal recebeu uma das oito indicações ao Oscar do filme, enquanto Anthony Hopkins interpretou o médico amável que se tornou amigo de Merrick nos anos que antecederam seu suicídio aos 27 anos.

Foi um sucesso internacional que catapultou Lynch ao estrelato em Hollywood, mas seu brilho acabou ofuscado após a adaptação do romance de ficção científica "Duna", que foi um fracasso estrondoso de 40 milhões de dólares.

Mistério entre os pinheiros

"Veludo Azul" levou Lynch ao caminho do sucesso e marcou o início de um relacionamento de cinco anos com a estrela do filme, Isabella Rossellini. Em 1990, Lynch confirmou seu retorno com aquela que talvez seja sua obra mais influente: "Twin Peaks".

Ambientada na fictícia cidade de Twin Peaks, no estado de Washington, perto da fronteira com o Canadá e chamada assim por seus altíssimos pinheiros, a história de Lynch começava com um saco para cadáveres contendo uma jovem sendo recuperado de um lago.

Ao longo de oito episódios, uma estranha normalidade foi se instalando, e o assassinato da bela Laura Palmer ficou sepultado sob camadas de mistério.

Foi um sucesso em sua primeira exibição na ABC e fez parte de um grande ano para Lynch, que também levou o primeiro prêmio em Cannes com seu filme "Coração Selvagem".

Lynch fez uma série sequencial de "Twin Peaks" em 1991 e, um ano depois, um filme spin-off protagonizado, entre outros, por David Bowie, junto ao simpático agente do FBI Cooper, interpretado por Kyle Maclachlan.

Meditação e meteorologia

O lado sombrio do "sonho americano" foi uma das obsessões de Lynch, mas ele se desviou do tema em "The Straight Story" para contar a história real de um homem que viajou em seu cortador de grama de Iowa a Wisconsin para visitar um irmão doente.

Em 2006, com o lançamento de "Inland Empire", um retrato sombrio de Hollywood protagonizado por uma Laura Dern enlouquecida no papel de uma atriz abatida, Lynch deu por encerrada sua carreira cinematográfica.

Naquele mesmo ano, ele se casou e se divorciou de sua terceira esposa, Mary Sweeney, diretora e produtora de cinema que havia sido uma de suas colaboradoras por muito tempo.

Em 2009, casou-se pela quarta vez com a atriz Emily Stofle, com quem teve um quarto filho, mas frequentemente esteve ausente como figura paterna, consumido por seu trabalho."É preciso ser egoísta. E isso é terrível", disse Lynch em 2018 sobre suas habilidades como pai.

"Na verdade, eu nunca quis me casar, nunca quis ter filhos. Uma coisa leva à outra, e aí está."Ao longo das últimas décadas, Lynch explorou a fotografia e a música até se tornar um defensor da meditação transcendental.

Lynch, fumante inveterado e viciado em café, costumava se sentar duas vezes ao dia desde 1973 para repetir um mantra durante 20 minutos e se tornou uma espécie de guru do clima, criando uma "previsão meteorológica" on-line de um minuto de duração que transmitia diretamente de sua casa em Los Angeles.

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