Arte & Agenda

Morre Dib Lutfi, diretor de fotografia que criou a estética do Cinema Novo

Ainda não há informação sobre a causa da morte do profissional, que tinha 80 anos

Dib Lutfi, fazendo a câmera de "Terra em Transe", com Glauber ao lado
Dib Lutfi, fazendo a câmera de "Terra em Transe", com Glauber ao lado Foto : Reprodução / CP
Considerado um dos maiores diretores de fotografia do cinema brasileiro, Dib Lutfi morreu na noite desta quarta-feira, no Rio de Janeiro. A notícia foi divulgada pelo irmão do fotógrafo, o músico Sérgio Ricardo, em sua página do Facebook. "Comunico com muito pesar o falecimento de meu irmão Dib Lutfi, considerado o grande poeta das imagens do Cinema Novo", diz o texto. Ainda não há informação sobre a causa da morte, bem como detalhes sobre velório e enterro. Dib tinha 80 anos e vivia no Retiro dos Artistas, no Rio.

Nascido em Marília, no interior de São Paulo, em 1936, Lutfi Mudou-se para o Rio de Janeiro no fim da adolescência. Em 1957, começou a trabalhar como câmera na TV Rio. Seu primeiro contato com o cinema aconteceu graças a um seminário promovido pelo Itamaraty, em 1962, com o sueco Arne Sucksdorff, com quem Dib trabalharia em seguida como assistente de câmera no longa-metragem "Fábula - Minha Casa em Copacabana" (1964).

Mas foi com o irmão Sérgio Ricardo que ele estreou de fato como cinematografista - Sérgio chamou-o para fazer a câmera do curta "O Menino da Calça Branca". Conservou-o na função em "Esse Mundo É Meu", de 1963. Os diretores do Cinema Novo viram o talento do câmera e começaram a convocá-lo para seus filmes. Com isso, ele se tornou um dos principais artistas a dar um contorno ao movimento.

"Ainda está para ser estabelecida a contribuição de Dib Lutfi para a estética do Cinema Novo", escreveu, em 1997, o crítico Luiz Zanin Oricchio. "Em sua origem, era caudatário de um movimento mais amplo, que vinha da nouvelle vague francesa. As câmeras começaram a ser tiradas do tripé e levadas na mão. O cinema precisava, tecnicamente, reproduzir a instabilidade de um mundo em ebulição e transformação rápida.

Ainda segundo o crítico, Lutfi captou como ninguém essa necessidade do momento histórico e a reciclou com técnica única e pessoal. Teve a capacidade de administrar essa instabilidade com infinita elegância. Era dotado para inventar os mais inusitados movimentos com a câmera sem que parecesse estar realizando uma proeza física. Não tremia, como constata Paulo Cesar Saraceni. Mas esse não tremer era apenas parte do segredo. "O importante é que Lutfi consegue associar a proeza técnica à uma leveza extraordinária. É só conferir alguns planos de 'Lira do Delírio', por exemplo. A câmera parece suspensa no ar, mas estranhamente em movimento. Como se o segredo da imponderabilidade tivesse sido descoberto. Ou como se a máquina ficasse lá, pairando, suspensa no nada, amparada apenas pela mão de Deus", concluiu.

Lutfi trabalhou com diretores como Nelson Pereira dos Santos (em "Fome de Amor", de 1968, e "Azyllo Muito Louco", de 1969,), Arnaldo Jabor ("Opinião Pública", de 1967, "O Casamento", de 1975, e "Tudo Bem", de 1978), e Ruy Guerra ("Os Deuses e os Mortos", 1970). A sua habilidade com a câmera na mão chamou a atenção de Glauber Rocha, que o convidou para "Terra em Transe" (1967).

Participou ainda dos filmes "ABC do Amor" (1966), de Eduardo Coutinho; "Edu, Coração de Ouro" (1967), "Feminices" (2004) e "Carreiras" (2005), de Domingos Oliveira; "Os Herdeiros" (1970), "Quando o Carnaval Chegar" (1972) e "Joana Francesa" (1973), de Carlos Diegues; "Como era Gostoso o Meu Francês" (1970), de Nelson Pereira dos Santos; "A Lira do Delírio" (1973), de Walter Lima Jr.; "Pra Frente, Brasil" (1981), de Roberto Farias; "Harmada", de Maurice Capovilla; "Vida e Obra de Ramiro Miguez" (2002), de Alvarina Souza Silva; e "500 Almas" (2004), de Joel Pizzini.

Guia de Programação: a grade dos canais da TV aberta desta terça-feira, dia 20 de outubro de 2026

As informações são repassadas pelas emissoras de televisão e podem sofrer alteração sem aviso prévio