Morreu nesta terça-feira, dia 19, o jornalista, dramaturgo, diretor e ator de teatro Julio Zanotta. Ele é conhecido por ser um dos dramaturgos mais representativos do Rio Grande do Sul. Zanotta faleceu por conta de um câncer de fígado, e estava internado em uma clínica. O velório ocorre nesta quarta-feira, 20, na capela 9 do Cemitério Ecumênico João XXIII, em Porto Alegre, entre 13h e 18h, e será aberto ao público.
Julio Cezar Zanotta nasceu em 18 de agosto de 1950, em Pelotas. Iniciou sua carreira de escritor ainda na adolescência, já ganhando prêmios com contos em 1969. Zanotta envolveu-se com o teatro na segunda metade da década de 1970, sendo um dos fundadores do grupo teatral Ói Nóis Aqui Traveiz, de Porto Alegre, do qual fez parte até 1978. Aos 20 anos, foi jornalista no Diário de Notícias, e envolveu-se com movimentos estudantis.
Em 1973, chegou a deixar o país, devido a problemas com a repressão da ditadura militar. Em 1981, Zanotta deixou novamente o país, na companhia da então sua esposa, a atriz e bailarina Lisaura Andréia Souto. Ficou dois anos viajando pela América Latina. De volta ao Brasil, viveu isolado numa cabana na Mata Atlântica.
Seus textos, voltados majoritariamente à sátira de estereótipos de gênero, exaltam a liberdade do corpo e a problematização de papéis sociais, com um discurso crítico e rebelde nas estratégias narrativas.
A obra de Zanotta é considerada exemplar no movimento de contestação no Brasil, por meio da linguagem teatral. Entre as montagens mais contundentes do autor, estão as produzidas pelo Levanta Favela, o coletivo teatral que pode ser considerado o mais subversivo surgido em Porto Alegre no século 21.
Zanotta também teve sua trajetória consolidada na literatura. Ele foi reconhecido como um dos livreiros mais respeitados da capital gaúcha. Foi presidente da Câmara Rio-Grandense do Livro entre os anos de 1994 e 1997. Em 2023, inaugurou a Livraria Absurda, em Porto Alegre. Entre seus livros publicados, está "Louco, E Nas Coxilhas Não Vai Nada?", "Teatro Lixo", "O Apocalipse Segundo Santo Ernesto De La Higuera" e "A Ninfa Dragão".
O filho de Julio, Bernardo Zanotta, deu a seguinte declaração:
“Nosso pai foi um homem genial em todos os sentidos. Desde o início de sua trajetória, na qual deixou uma marca inegável na dramaturgia brasileira, até o fim. Ele passou um ano e meio lutando contra um câncer de próstata, que foi curado, mas, ao descobrir um câncer no fígado ao final desse processo, entendeu que estava entrando em um caminho sem volta e fez de cada um de seus dias uma verdadeira obra de arte.
Assim que soube que lidava com uma questão de semanas, escreveu um roteiro cinematográfico sobre a própria morte, ficcionalizando vários aspectos dessa experiência e me convidando para realizar o filme com ele. Sou diretor de cinema, muito em razão da relação que tive com meu pai e por ter começado minha vida com ele nos bastidores de suas peças e produções. Em outubro, passamos duas semanas intensas filmando em Porto Alegre, visitando cemitérios e funerárias com uma pequena equipe. O pai construiu seu próprio caixão, conversou com coveiros sobre os rituais ao redor da morte, deu risadas e se divertiu, apesar da doença. Com seu humor idiossincrático, ele lidou com a morte de uma forma única em todas as situações.
Não queríamos que o roteiro seguisse uma ordem cronológica rígida. Em vez disso, desejávamos que o filme fluísse por meio de associações de ideias, momentos e personagens, da mesma maneira que suas peças e romances. Muitas partes do roteiro que ele escreveu e do filme que começamos a realizar não puderam ser filmadas devido ao avanço do câncer. Por isso, este é um projeto a ser concluído, mesmo sem ele, mas da maneira com que ele imaginou. Um longa-metragem que, mais do que narrar a vida do nosso pai, refletirá a genialidade e a loucura dele, bem como a potência da obra que deixou.
Meu pai recusou-se a tratar a morte como um momento de tristeza predominante. Ele quis propor algo radical. E a radicalidade foi o que definiu toda a sua vida. Era alguém que jamais adiava a existência; tinha uma ideia e a perseguia com todo o seu ser, para depois perseguir outra, e mais outra, até o fim.
O primeiro texto em que ele trabalhou, desde os anos 70, teve vários títulos, inclusive O Colapso e Destruição da Cidade de Porto Alegre, e acabou sendo também o último. É um romance de cerca de quinhentas páginas, que permanece inacabado, ou melhor, que possui vários finais e começos. Essa é uma das muitas obras inéditas que pretendemos editar e publicar no próximo ano.”