Nascido em 22 de maio de 1924 em Paris, filho de pais armênios, Aznavour vendeu mais de 100 milhões de discos ao longo de oito décadas de uma carreira excepcional. Apelidado de Frank Sinatra de França, ele alcançou fama mundial apesar de uma voz e um físico incomuns. "La Bohème", "La Mamma" e "Emmenez-moi" estão entre as canções mais notáveis de um repertório de acentuado tom nostálgico.
Sucesso tardio
"Não sou velho, tenho mais idade, é diferente", brincou Aznavour certa vez em declarações à AFP. Uma maneira de desafiar a passagem do tempo para quem o sucesso artístico chegou tarde, aos 36 anos, em uma noite em dezembro de 1960. Na sala Alhambra de Paris, ele fez seu primeiro show, depois de ter sido alvo dos críticos que não acreditavam nem no seu talento de palco nem na sua voz.
Mas naquela noite ele mudou a mente de todos ao interpretar "J'me voyais déjà", sobre as ilusões perdidas de um artista. Ele também escreveu para os grandes artistas franceses, como Juliette Gréco, Gilbert Bécaud e Edith Piaf, que sempre o apoiaram, assim como Charles Trénet, Constantin Stanislavski e Maurice Chevalier.
Início precoce e amizades decisivas
Aos 9 anos, Charles Aznavour começou o seu convívio no palco. Chamava-se, então, Shanour Vaginagh Aznavourian. Tinha uma bela voz, mas talvez não se tivesse tornado mito sem a ajuda de uma madrinha. Na verdade, de uma amante. A lendária Edith Piaf ouviu-o cantar, sentiu-se arrebatada por sua virilidade e o integrou ao seu show, levando-o em turnê pela França, até os Estados Unidos. Rebatizado Charles Aznavour, tornou-se o cantor e compositor do amor. Poliglota, cantou - e compôs - os próprios sucessos em várias línguas. "Que c'Est Triste Venise", ou "Com'è Triste Venezia", "How Sad Venice Can Be".
A amizade de Aznavour com outros artistas rendeu parcerias. Elvis Costello fez uma versão de "She" para a comédia romântica "Um Lugar Chamado Notting Hill". E cantaram com ele Fred Astaire, Bing Crosby, Ray Charles e Liza Minnelli. Apesar da pequena estatura, 1m60, era um gigante no palco. O mito ultrapassou-o e, no Japão, como Char Aznable, virou personagem de uma famosa animé de ficção científica, "Mobile Suit Guindam".
No cinema, ele fez um pequeno papel em "O Testamento de Orfeu", de Jean Cocteau, e estrelou "Atirem no Pianista", policial de François Truffaut adaptado do escritor David Goodis, ambos em 1960. No mesmo ano, "A Passagem do Reno", de André Cayatte, venceu o Leão de Ouro em Veneza, derrotando Rocco e Seus Irmãos, de Luchino Visconti.
"Quais eram as minhas desvantagens? Minha voz, minha estatura, meus gestos, minha falta de cultura e de instrução", admitiu o cantor. Aznavour manteve sua determinação, mais forte do que aquele "véu de neblina" que cobria o timbre de sua voz. E que terminou, enfim, sendo sua marca inconfundível e uma das chaves de seu sucesso.
Quando a idade começou a lhe impor limites, Aznavour não se deu por vencido. Usava um banquinho alto e ajudava sua memória com um ponto eletrônico. Pouco antes de sua morte, fez uma turnê no Japão e pretendia se apresentar este mês em Bruxelas. O artista parecia rejuvenescer a cada vez que cantava: estreava seus shows com uma voz alquebrada e o corpo frágil, mas concluía o espetáculo com altivez e leve como uma pluma.
Artista do século
Apesar de não ter feito grandes canções nos últimos 30 anos, Aznavour manteve seu mito intacto, atuando nos mais prestigiados palcos do mundo. Uma vingança para aqueles que não viram nenhum futuro para ele e que "morreram há muito tempo, enquanto eu ... eu ainda estou aqui", declarou certa vez.
Em 1998, a CNN e a revista Time o coroaram como "artista de entretenimento do século". Sempre, preocupado com o drama dos migrantes, muitas vezes lembrou de seu apego à França e à Armênia. "São países inseparáveis como o café e o leite", declarou no ano passado, quando recebeu sua estrela na Calçada da Fama de Hollywood.
Engajamento político e social
O ex-presidente francês Jacques Chirac nomeou Aznavour um oficial da Legião de Honra por seu engajamento político e social. Na década de 80, ele se envolveu com novos temas, sensíveis para a época, como o da homossexualidade, em "Comme ils disent" (1972).
Em 1998, liderou os esforços humanitários para ajudar milhares de vítimas do terremoto que devastou a Armênia e, durante anos, militou a favor do reconhecimento do genocídio armênio por parte dos turcos. Em dezembro de 2008, o cantor recebeu a cidadania armênia, e ele era embaixador do país na Suíça e no Fundo das Nações Unidas para a infância (Unicef) desde 2009.