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“Mortal Kombat 2” e “Edifício Bonfim” são destaques entre as estreias de cinema

Crítico de cinema Marcos Santuario comenta, em poucos minutos, as produções que podem ser conferidas, a partir desta quinta-feira, dia 7 de maio

Há quintas-feiras que passam sem deixar muitas marcas. E há quintas-feiras que parecem um ringue. Esta semana é a segunda opção, e o confronto não é apenas de personagens, mas de ideias de cinema. De um lado, o espetáculo global de “Mortal Kombat 2”; do outro, o delírio fantástico e autoral de “Edifício Bonfim”. Dois filmes, dois caminhos, duas formas de encarar o que significa entreter o, até mesmo, provocar.

“Mortal Kombat 2” entra nas salas de cinema como um golpe direto, carregando décadas de nostalgia de um videogame que moldou gerações. Sob a direção de Simon McQuoid, a proposta é ampliar tudo. Mais combates, mais violência estilizada, mais personagens icônicos colidindo em um universo onde o exagero não é falha, mas linguagem. A chegada de Johnny Cage, vivido por Karl Urban, é sintomática. Ele traz carisma, ironia e autoconsciência dentro de um mundo que sabe que é absurdo.

Aqui, o cinema funciona como parque de diversões. A narrativa é menos importante do que o impacto sensorial. O vilão Shao Kahn não precisa de sutileza, ele é uma força. E o conflito entre reinos é quase um pretexto para coreografias brutais que celebram o corpo, o choque, o espetáculo. É o blockbuster em sua forma mais pura. Com seus desejos explícitos e nada camuflados. Internacional, barulhento, pensado para Imax, para multidões e para o consumo coletivo de adrenalina.

Mas então surge “Edifício Bonfim”, e o combate muda de natureza. É dirigido por Ligia Walper, produtora de muito talento e nome forte ao lado do marido e diretor respeitado Tabajara Ruas. O filme representa um outro tipo de coragem, a de estranhar. Em vez de expandir, ele mergulha. Em vez de explicar, ele fragmenta. Três histórias que se cruzam dentro de um prédio, onde o banal se contamina pelo insólito.

Bruxas, assassinos e criaturas, mas nunca como espetáculo fácil. Aqui, o terror é atmosfera, é sugestão, é desconforto.

Se “Mortal Kombat 2” grita, “Edifício Bonfim” sussurra e talvez por isso incomode mais.

Há algo profundamente brasileiro e, neste caso, sulista, na maneira como o filme se constrói. A influência das pesquisas de Franklin Cascaes não é decorativa. Ela ancora o fantástico em tradições, em memórias, em medos herdados. O prédio não é apenas um simples cenário. Ele é um organismo. E a cidade de Florianópolis, com sua beleza quase irreal, torna-se importante cúmplice do horror.

A proposta de Ligia Walper é de um o cinema que não entrega respostas fáceis. Que mistura gêneros sem pedir autorização. Que aceita o risco de confundir para, em troca, provocar. É a experiência que une talento de produção e ousadia criativa.

No fim, o “kombate” desta quinta-feira não é sobre qual filme é melhor. É sobre o que você espera do cinema. Se quer catarse ou inquietação. Se deseja impacto ou estranhamento. Se está focado em soco ou arrepio. Talvez a escolha mais honesta seja não escolher. Assistir aos dois. Sentir o peso de um golpe de Scorpion em uma tela gigante. E, depois, encarar o silêncio perturbador de um corredor qualquer no “Edifício Bonfim”.

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