Após passar pelo Musée de Grenoble, pela Temporada Brasil–França 2025, a Fundação Iberê apresenta a exposição monográfica dedicada a José Antônio da Silva (1909–1996). Com curadoria de Gabriel Pérez-Barreiro, a mostra reúne 44 obras provenientes de coleções públicas e privadas brasileiras, lançando luz sobre a trajetória singular de nome contundente da arte brasileira do século 20. A exposição “José Antônio da Silva: Pintar o Brasil”, com curadoria de Gabriel Pérez-Barreiro, tem abertura hoje, 14h, na Fundação (Padre Cacique, 2000), com visitação até 2/11, de quinta a domingo, das 14h às 18h (última entrada).
Autodidata, Silva foi um pintor prolífico, que pintou mais de cinco mil telas ao longo de aproximadamente cinco décadas. A exposição é organizada por temas, cobrindo as suas preocupações principais: vida caipira, cenas religiosas, paisagens, naturezas-mortas e autorretratos. Embora alguns tópicos caracterizem certas fases de sua vida, outros assuntos foram desenvolvidos por Silva durante longo período. Como explicou o artista em seus versos: “Pinto a lavoura/ Também pinto as pastarias/ Pinto a empregada e a patroa/ Pinto a Joana e a Maria/ Pinto carroça e carreta/ Pinto carro e carretão/ Pinto o pedreiro na picareta/ Pinto o colono no enxadão” (Sou pintor, sou poeta, de 1982).
Inspirado por Vincent van Gogh, e muitas vezes sendo considerado o “Van Gogh brasileiro”, Gabriel Pérez-Barreiro diz: “A comparação com Van Gogh é interessante, pois ele também ficou fora do mainstream, tratado como louco por muitos em sua época. Há certas semelhanças no uso vívido e dinâmico da pintura para representar o mundo ao redor deles, sem mencionar seu interesse pela vida cotidiana do campo e dos trabalhadores. Mas eles diferem em grande medida na abordagem do retrato: enquanto van Gogh estava interessado na personalidade de seus modelos e se esforçava em captar suas identidades únicas, Silva esquematizava as figuras (a não ser em seus numerosos autorretratos), esboçava as formas humanas vistas quase sempre de longe. Van Gogh nunca se permitiu esse grau de abstração, escolhendo concentrar-se nos traços individuais e na dignidade de cada pessoa.”
“A obra de José Antônio da Silva, de grande complexidade, é testemunha do processo de modernização vivido pelo Brasil ao longo do Século 20, tanto em termos econômicos e sociais quanto em termos artísticos. O principal tema do artista é o mundo rural e seu cotidiano. Seu olhar, contudo, não é contemplativo ou estático: pelo contrário, suas pinturas são caracterizadas por intenso dinamismo, e todo o seu universo parece estar em constante trânsito: boiadas passam, florestas são derrubadas, campos de cultivo são abertos, se diversificam, urubus espreitam a tudo e todos, personagens realizam ações aparentemente banais em um mundo de grandes turbulências, com olhares à espreita e paisagens em constante transformação”, diz Emilio Kalil, diretor-superintendente da Fundação Iberê.
Filho de lavradores de cafezais do interior de SP, Silva desempenhou diversos ofícios ligados ao trabalho rural, até mudar-se para São José do Rio Preto, onde trabalhou como porteiro em hotéis e outros estabelecimentos. O ciclo do café trouxera a proliferação dos núcleos populacionais no interior do estado e a maximização dos centros urbanos, ferrovias e indústrias, que se mesclaram ao mundo rural das economias do algodão, da pecuária e da cana-de-açúcar.
Nos anos 1940, suas pinturas já sinalizam as mudanças do tecido social nessa região. As paisagens, muitas vezes, incluem figuras de trabalhadores liberais, colonos, fazendeiros e lavradores – seja em cenas de descanso, lazer ou trabalho. Em 1946, ele se informa sobre um concurso de pintura que inauguraria a Casa de Cultura de São José do Rio Preto. Sem dinheiro para comprar telas, pintou seus primeiros três trabalhos sobre flanela. As obras foram enviadas para a mostra e chamaram atenção do júri, composto por Lourival Gomes Machado e Paulo Mendes de Almeida e pelo filósofo João Cruz Costa – todos ligados ao modernismo paulista. Apesar do júri ter indicado Silva para o 1º lugar do concurso, a comissão organizadora anulou a decisão e o relegou ao 4º lugar.
Em 1948, Lourival Gomes Machado, Paulo Mendes de Almeida e João Cruz Costa realizaram a primeira exposição individual de Silva na Galeria Domus. O sucesso foi grande e todas as obras foram vendidas. Pietro Maria Bardi, fundador e diretor do MASP, adquiriu dez quadros. Desde então, Silva passou a ser reconhecido como um dos maiores pintores primitivos, designação que ele mesmo usava.