Arte & Agenda

Mostra quer preservar para reconhecer e evoluir nas telas

Durante a 21ª CineOP, a histórica cidade mineira de Ouro Preto volta a se transformar na capital brasileira da preservação audiovisual e da cultura

CineOP acontece de 25 a 30 para lembrar que nenhuma nação sobrevive sem memória
CineOP acontece de 25 a 30 para lembrar que nenhuma nação sobrevive sem memória Foto : Ane Souz / Divulgação / CP

Em um país que tantas vezes parece condenado ao esquecimento, a CineOP chega à sua 21ª edição para lembrar algo fundamental, de 25 a 30 de junho, em Ouro Preto. Chega movido pela ideia de que nenhuma nação sobrevive sem memória e, no caso do Brasil, essa memória também está guardada em fotogramas, negativos, fitas, arquivos digitais, filmes restaurados, obras revistas e imagens.

No momento do evento, a histórica cidade mineira volta a se transformar na capital brasileira da preservação audiovisual. Mais do que um festival de cinema, a CineOP consolidou-se como um dos acontecimentos culturais mais importantes do país, um espaço raro onde o cinema não é apenas entretenimento ou indústria, mas patrimônio, educação, história e reflexão coletiva. Seu tema em 2026, “Um país existe nas imagens que preserva”, surge como urgência necessária.

Precisamente em um momento contemporâneo em que a velocidade do presente ameaça apagar tudo o que veio antes, a CineOP propõe justamente o contrário. Quer desacelerar para olhar, mostrando que o que se deve é olhar para trás não como exercício de nostalgia, mas como gesto político. Afinal, o que a sociedade escolhe preservar revela muito sobre aquilo que ela deseja ser.

A dimensão do evento pode dar essa ideia, com seus 135 filmes, entre longas, médias e curtas-metragens, distribuídos em 42 sessões gratuitas. Obras vindas de 18 estados brasileiros e de diferentes países, formando um mosaico de experiências, linguagens e perspectivas. O público encontrará pré-estreias nacionais, filmes históricos, cópias restauradas, produções experimentais, animações, documentários, trabalhos escolares e obras que desafiam as fronteiras tradicionais do audiovisual.

Entre os destaques está a Mostra Competitiva Contemporânea – Arquivos em Questão, que confirma a tendência do cinema contemporâneo da transformação dos arquivos em matéria viva de criação. Os cinco longas selecionados demonstram que imagens do passado não servem apenas para documentar o que aconteceu. São “Proust Palimpsesto: Pastiches e Misturas” (Carlos Adriano, SP); “Apopcalipse Segundo Baby” (Rafael Saar, RJ); “Universo Circular – Jocy de Oliveira” (Dácio Pinheiro, RJ); “Irritante Prodígio” (Luiza Lindner, SP); e “Notas Sobre Desterro” (Gustavo Castro, DF).

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Mas talvez uma das dimensões mais poderosas desta edição esteja na homenagem à cineasta Helena Solberg. Pioneira, inquieta e fundamental para a história do cinema brasileiro, Solberg construiu uma filmografia que atravessa décadas discutindo gênero, poder, representação e sociedade. Este se torna um bom momento para rever obras como “A Entrevista” ou “Carmen Miranda: Bananas Is My Business”, para reencontrar perguntas que permanecem atuais. Sua presença simbólica na CineOP reforça o compromisso do evento com a valorização das mulheres que ajudaram a construir o audiovisual brasileiro. Essa valorização feminina também atravessa a Mostra Histórica, dedicada aos primeiros filmes de cineastas brasileiras. Ao reunir nomes importantes como Ana Carolina, Lucia Murat, Tata Amaral e Viviane Ferreira, o evento desenha a genealogia da criação feminina no cinema nacional, revelando continuidades, rupturas e conquistas da nossa cinematografia.

Mas a CineOP não vive apenas da celebração do passado, mas pensa o futuro, promovendo o encontro entre audiovisual e educação. O Encontro da Educação e o Fórum da Rede Kino transformam professores, estudantes, pesquisadores e realizadores em protagonistas de um debate essencial sobre alfabetização audiovisual, formação crítica e criação coletiva. Também vale aplauso o Encontro Nacional de Arquivos e Acervos Audiovisuais Brasileiros, com especialistas que discutem preservação, inteligência artificial, soberania digital e mais.

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