O cineasta carioca Murilo Salles, 64 anos, apresentou seu longa-metragem, “O Fim e os Meios”, na Mostra Competitiva nacional na noite de domingo. A história acompanha um casal do Rio de Janeiro que vai morar em Brasília para uma oportunidade profissional. Ele é publicitário (Pedro Brício) e aceita uma proposta de Hugo (Marco Ricca), genro e assessor de um senador nordestino (Emiliano Queiroz), para trabalhar em marketing político. Ela é jornalista (Cintia Rosa) e consegue uma vaga em um jornal local para cobrir a agenda política do Distrito Federal. Ambiciosos, tanto ele como ela acabam conseguindo sucesso nas carreiras, mas o jogo de corrupção da política brasileira não demora a envolvê-los. “O tema é angustiante”, admite o ator Pedro Brício.
O cineasta contou que levou sete anos fazendo este filme e, inspirado em uma música de Raul Seixas, deseja que “ele seja a mosca que cai na sopa”. Ou seja, não tem medo de que possa ser incômodo ao abordar justamente um assunto tão pungente no Brasil atual, a corrupção. “Meus personagens são pessoas comuns, que acabam se afogando neste meio”, comentou. “Meu tema é o Brasil”, completou.
O diretor se mostrou emocionado em voltar a Gramado. “Este é meu quinto filme aqui”, lembrou, já tendo recebido kikitos por diferentes obras, em diferentes categorias, seja como diretor ou fotógrafo. Entre eles “Como Nascem os Anjos” (1996) e “Nome Próprio” (2008).
O cineasta revelou também que se inspirou na personagem de Ana Karenina para compor a protagonista de “O Fim e os Meios”, Cris (Cíntia). Ela é uma jornalista que chega a Brasília disposta a abrir seu espaço, mas não compactuar “com o sistema”. Contudo, acaba sendo dominada por ele, em uma relação que envolve sexo e poder. Pela personagem ser negra e, em duas cenas diferentes do filme, ser chamada de “neguinha”, se percebe que o racismo é um tema abordado na narrativa, ainda que não seja o principal. A fotografia apresenta muitas cenas em dias nublados e tons cinza-esverdeados. A montagem não teve medo de apresentar elipses para mostrar passagens de tempo. O resultado é um filme complexo, como o tema que se dispõe a abordar.
Murilo Salles questiona a corrupção na política em "O Fim e os Meios"
Cineasta apresentou seu longa na Mostra Competitiva nesse domingo no Festival