Há Copas do Mundo que produzem campeões. E há Copas do Mundo que produzem memória. A de 1994 pertence à segunda categoria. O tetra conquistado nos Estados Unidos não foi apenas uma vitória esportiva. Foi um acontecimento cultural capaz de redefinir a relação do Brasil consigo mesmo. E é justamente por isso que “Tetra: Acreditar de Novo”, documentário que chega à Netflix neste domingo, transcende o universo do futebol para ocupar um espaço muito mais amplo. Chega ao universo da preservação da memória nacional através do audiovisual.
Em um país que muitas vezes negligencia seus próprios arquivos, revisitar 1994 significa recuperar um dos capítulos mais emblemáticos da identidade brasileira contemporânea. Não se trata apenas de recordar os gols de Romário, as comemorações de Bebeto, a liderança contestada de Dunga ou a defesa decisiva de Taffarel. Trata-se de revisitar um Brasil de décadas de frustrações esportivas e que encontrou naquela seleção raro momento de reconciliação coletiva.
Toda Copa do Mundo transforma jogadores em protagonistas, técnicos em diretores, torcedores em espectadores apaixonados e partidas em roteiros imprevisíveis. Poucas histórias, porém, possuem uma estrutura dramática tão poderosa quanto a campanha do tetra.
A seleção chegou desacreditada. A imprensa questionava. A torcida desconfiava. O futebol apresentado era considerado pragmático demais para os padrões de um país acostumado a se enxergar como o guardião mundial da beleza em campo. Havia tensão, cobrança e desconfiança. Em outras palavras, havia todos os elementos de uma grande narrativa cinematográfica.
O documentário não se limita a exibir imagens conhecidas ou repetir discursos consagrados. Ele mergulha nos bastidores através de registros captados pelos próprios jogadores. As câmeras de Gilmar Rinaldi e Jorginho transformam atletas em documentaristas involuntários de sua própria epopeia.
O resultado é fascinante porque rompe a barreira entre personagem e narrador. O espectador abandona a arquibancada e entra no vestiário. Sai do campo e ocupa os corredores dos hotéis, os momentos de descontração, os instantes de dúvida e as pequenas cenas cotidianas que normalmente desaparecem da história oficial.
Essa dimensão torna o documentário ainda mais relevante para o audiovisual brasileiro. Durante décadas, o cinema nacional voltou seu olhar para temas fundamentais como política, desigualdade, violência urbana e transformações sociais. Mas também existe um enorme patrimônio cultural presente no esporte, especialmente no futebol, que ajuda a explicar quem somos.
O tetra de 1994 talvez seja um dos exemplos mais potentes dessa conexão. Afinal, o futebol e o audiovisual compartilham a mesma matéria-prima: emoção. Ambos dependem de personagens marcantes, conflitos intensos, tensão dramática e momentos de catarse coletiva. Ambos transformam acontecimentos em narrativas. Ambos constroem memória.
Não por acaso, as imagens de 1994 permanecem vivas mais de três décadas depois. O abraço de Bebeto simulando o embalo do filho recém-nascido. Romário decidindo partidas. A cobrança de pênalti de Roberto Baggio subindo sobre o travessão. São cenas que pertencem simultaneamente ao esporte e à história da imagem brasileira.
Num momento em que plataformas de streaming disputam a atenção do público global, a chegada de “Tetra: Acreditar de Novo” representa também uma oportunidade de reafirmar o valor das histórias nacionais. O documentário mostra que o Brasil não precisa importar grandes épicos. Muitos dos seus maiores roteiros já aconteceram diante das câmeras.
O futebol produziu o acontecimento. O audiovisual garante que ele jamais desapareça.