O palestrante também comentou sua visão de que a literatura mundial está mudando. Até bem pouco tempo a alta literatura era produzida na América do Norte, basicamente por Europa e Estados Unidos. Hoje, com o crescimento dos países emergentes, em que ele cita Brasil, Índia, China, México e mesmo a Turquia, ele espera que esta situação mude e que as manifestações culturais de vários países tenham maior circulação mundial. "Uma nova humanidade está surgindo. Nos restará entender até que ponto somos diferentes e até que ponto somos iguais", sugere.
Sobre a questão da identidade cultural da Turquia, que Pamuk considera ser muito dividida porque é um país posicionado entre a Europa e o mundo árabe, ele considera que a influencia européia é muito forte, mas é preciso encontrar um equilíbrio entre a influência externa e a cultura local. O romancista destacou ainda que a cultura islâmica não está em contradiação com a Europa, mas o problema são os grupos que fazem mau uso da religião.
Sobre a influência da internet na literatura, Pamuk diz que todos ainda estamos aprendendo com isso.
"Há uma briga de interesses em andamento", observa. "Apesar de gostar do cheiro do papel e de ter uma biblioteca de 16 mil livros em minha casa em Istambul, admito que a venda de livros pela internet pode baratear o custo, já que futuramente poderá eliminar o papel e distribuição", comentou, ressaltando que isso poderá permitir o acesso a um maior número de pessoas à literatura. "Sou otimista em relação à internet. Só tenho medo da pirataria", alertou. "A rede é um mar anárquico. Por isso precisamos de editoras e revistas que nos dêem referências para ter condições de decidir o que há de melhor para se ler", opinou.
Sobre a situação atual da Turquia, o escritor diz que os melhores anos de relações entre Europa e Turquia foram 2005 e 2006, quando a Turquia estava em negociações para entrar na União Européia. Mas por fim não houve acerto. "Acho que a Turquia perdeu uma grande oportunidade. Mas hoje a União Européia está com seus problemas e a Turquia está com um bom crescimento econômico, então seguimos cada um seus caminhos, mas espero que um dia possa haver essa união", relata.
Sobre o movimento da primavera árabe, apesar de não ter atingido a Turquia, Pamuk expressou sua alegria por diversos países mostrarem sua força para vencer forças ditatoriais. Mas para ele, que também viveu em um país que alterna autoritarismo militar com fundamentalismo, espera que a democracia seja possível, em especial porque grupos radicais islâmicos estão à espreita para tomar o poder nos países atualmente em transição.
Pamuk diz que seu livro "Istambul" é o mais autobiográfico de todos. Contou ainda que dos 7 aos 22 anos queria ser pintor. Chegou a entrar na faculdade de arquitetura, mas largou o curso. "Eu sabia que a rotina burocrática e corporativa não era para mim" comentou. Logo percebeu que sua vocação o chamava para trabalhar sozinho, em uma sala, fazendo criações. "Ser escritor é como fazer uma maquete da vida real", resumiu. Sobre sua relação com a cidade onde vive, Istambul, ele comenta que quando começou a escrever, as estatísticas diziam que a cidade tinha 1 milhão de habitantes. Hoje tem cerca de 12 milhões. "Fiquei por 25 anos sem sair de Istambul. Por isso, se você me pede para falar de Istambul, é como se me pedisse para falar da vida", explica.