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Noite dos Museus: Como será o show do rapper Rashid

Apresentação será neste sábado, 29, às 23h, na Praça da Alfândega

Rashid revela que sucessos como "Bilhete 2.0" está no setlist
Rashid revela que sucessos como "Bilhete 2.0" está no setlist Foto : Kleber Oliveira / Divulgação / CP

Neste sábado, 29, Porto Alegre recebe mais uma edição da Noite dos Museus, com atrações em diversos locais da cidade. Um dos pontos mais movimentados é a Praça da Alfândega pela concentração de museus ao redor. Pensando nisso, a Praça também será palco de shows gratuitos a partir das 18h. Entre os nomes confirmados, Bibiana Petek, Flor ET, Zudizilla e Rashid.

Em conversa com a reportagem do Correio do Povo, o rapper paulistano Rashid conta que a relação com a cidade é forte e não descarta a possibilidade de participações.

Confira a entrevista completa:

Correio do Povo: Estiveste em Porto Alegre em outras ocasiões e projetos. Qual a diferença de cantar literalmente em praça pública?

Rashid: “É bem diferente de tudo porque o acesso à cultura acaba virando um pouco o privilégio de quem pode pagar pela cultura. E mesmo a gente com o nosso show e nosso rap sendo voltado para a periferia majoritariamente, a gente também precisa fazer o show nos locais onde somos contratados porque precisamos sobreviver. Então, às vezes isso acaba repreendendo um pouco o acesso, mas quando a gente vai pra rua, praça pública, a gente tá simplesmente devolvendo né? Eu sempre vejo isso como uma devolutiva, tipo, estamos entregando a cultura nas mãos de quem faz a cultura acontecer mesmo. Para todo mundo. Tem todo tipo de público. Às vezes aquela pessoa que só ouviu uma música, duas músicas, ela de repente não é uma super fã, ela não queria pagar um ingresso no lugar, mas ela gostou do que ouviu e quer ver mais. Ou a pessoa que só “raspou” pelo nome do Rashid em algum lugar, ela vai querer estar lá. Eu gosto bastante desse tipo de show. Aqui em São Paulo, a gente faz bastante, o interior de São Paulo e tal. Fora do nosso estado (SP) que acaba sendo mais raro esse tipo de convite assim. E aí é sempre especial, ainda mais da Noite dos Museus, que eu sei que é um evento super tradicional da cidade e que já tem uma uma história. Muito interessante fazer parte disso.”

CP: Li um material sobre o teu público e Porto Alegre aparece em sexto lugar num “ranking” de capitais que mais escutam o teu trabalho. Como é vir pra cá sabendo disso?

Rashid: “Tem uma diferença porque primeiro que Porto Alegre já tem uma escola de rap e hip hop. Tem uma tradição de hip hop que é absurda, além de uma tradição em cultura negra e de cultura periférica. Então tem uma uma grande variedade, vamos dizer assim, de grupos e artistas do Rap que são do estado do Rio Grande do Sul também. Ir para lugares que são formadores de artistas e formadores de pensadores da cultura já tem um peso. A gente tá indo para lugares onde eu tenho ídolos, tenho pessoas que eu admiro, que vieram antes e onde eu tenho muitos fãs. Inclusive, devido a isso, a gente até preparou um show que ele meio que abarca vários momentos da minha carreira, não é o show específico que eu tava trabalhando no último ano, que era o show somente do Portal. Preciso passar por músicas que de repente eu ainda não tive oportunidade de tocar aí na cidade, sabe?

É muito especial isso porque realmente tem um carinho muito forte com as pessoas daí. Além do pessoal me mandando mensagem direto: “ah, quando você vem para Porto Alegre?”. E inclusive tem uma relação que até foi mais aproximada dos últimos tempos porque tem um artista de Porto Alegre, que é o Duda Raupp, um produtor que agora contribui na Foco na Missão, e é um cara que estreitou nossos laços com a música de Porto Alegre. Ele produz muitas coisas pra gente, acabou de ganhar um Grammy Latino na produção do disco da Luedji Luna… Sempre que a gente tem esse laço com os locais que já têm essa tradição dentro da cultura, é um um um momento especial. Agora com o Museu do Hip Hop tem ainda mais força. É um lugar que preciso conhecer.”

CP: Tu vais aproveitar a Noite dos Museus para conhecer o Museu do Hip Hop?

Rashid: “Eu preciso ir, mas o dia vai ser tão corrido… Eu queria participar da corrida que vai ter também. Eu até perguntei pra minha produção que hora vai ser a corrida, mas acho que não vai dar tempo, vai ser pouco antes do show.”

CP: Tu és um artista que utiliza muito da literatura e a Praça da Alfândega recém foi palco da 71º Feira do Livro de Porto Alegre. Tem um valor diferente?

Rashid: “Sim, com certeza. Um local que é o palco da Feira do Livro tão tradicional, com mais de 70 edições. E aí a gente vai fazer um show de rap na semana seguinte é simbólico. É simbólico porque muita gente ainda assimila a cultura hip hop e a música rap à marginalização, à ignorância ou à falta de conhecimento por muitos preconceitos que são entrelaçados nessa visão, como o racismo, preconceito cultural e preconceito de classe. A minha música anda de mãos dadas com a literatura, porque tanto quanto a música ou o rap, a literatura também me salvou, deu novos sonhos na vida. As pessoas precisam retirar essa máscara que elas mesmas colocaram sobre o rap. Elas precisam retirar essa máscara para passar a olhar o rap como uma forma de expressão de arte, e de literatura. É uma escrita belíssima se você parar para analisar várias das letras que a gente tem.

O Emicida, que recebe o título Honoris Causa pela Ufrgs amanhã, é um dos caras que é super amarrado com a literatura na obra dele. São os pequenos simbolismos que vão naturalizando a proximidade. E essa naturalização é que vai começar a quebrar esse preconceito e essa distância que as pessoas colocam entre uma coisa e outra. Isso aí é uma coisa que tá na nossa história há muito tempo.Tanto que na cultura Hip Hop a gente diz que, tradicionalmente, temos quatro elementos e o conhecimento é o quinto. Então, é para mim é muito simbólico e muito especial. Não sabia que era o mesmo espaço da Feira do Livro de Porto Alegre e fiquei muito feliz de saber agora.”

CP: Tem algo ou alguém que tu esteja lendo agora e está servindo de inspiração?

Rashid: “Não necessariamente que eu esteja lendo mas, acho que, mas há pessoas que eu acompanho mais de perto, né?! Por exemplo, o Itamar Vieira Júnior, que tem feito barulho e causou um reboliço com seus lançamentos. Também o Jeferson Tenório que, se eu não me engano, é do Rio Grande do Sul, né?”

CP: Ele é do Rio de Janeiro, mas é radicado aqui.

Rashid: “É, porque se eu não me engano, ‘O Avesso da Pele’ fala muito sobre a vivência em Porto Alegre e é um dos livros que me impactou nos últimos anos também. São pessoas que eu acompanho de perto. Eu sempre estou lendo coisas diferentes. Para falar a verdade, agora eu estou num hiperfoco assim, mas não necessariamente como autor temático, mas é o Leonardo da Vinci. Eu estou estudando tudo dele. Mas enfim, acho que esses dois citados representam muito bem a literatura contemporânea do Brasil com um viés preto, viés hipercultural…O que o Itamar fez escrevendo ‘Torto Arado’ é uma coisa absurda.”

CP: Citaste o Leonardo da Vinci. É para algum projeto ou é pessoal?
Rashid: “Ah, eu acho que tudo se entrelaça, mas é pessoal mesmo. É mais uma curiosidade. Neste ano, por nenhuma razão, eu comecei a pesquisar essas grandes personalidades da história da arte. Não só da arte, como da ciência também. Comecei com uma biografia do Van Gogh que eu ganhei do Emicida de aniversário. Conheci o Van Gogh, depois passei pro Einstein. São pessoas que mudaram tudo em algum momento da história, pessoas revolucionaram suas áreas. A gente fala muito dessas pessoas com Van Gogh, Darwin etc. como se a gente tivesse falando de pessoas hiper famosas, mas a gente dá uma esvaziada no que as pessoas fizeram ou significaram. O cara simplesmente revolucionou a história da ciência. As coisas que ele descobriu, os estudos, os cálculos, são coisas que, até hoje, as pessoas estão estudando para tentar saber do que ele tava falando. É uma coisa grandiosa.”

CP: Voltando a falar do show, terá participação especial?

Rashid: “Não, para amanhã a gente não tem. Mas até pelo fato de que, por exemplo, uma pessoa que eu chamaria para participar, o Zudizilla, ele vai cantar antes de mim, já vai ter rolado o show dele e tal. E uma outra grande amiga minha que é daí, a Cristal, está morando em São Paulo, e não vai estar aí.”

CP: Acho que ninguém vai se importar se chamar de novo o Zud para o palco…

Rashid: “É, talvez. Pode acontecer. E talvez tenha surpresas, mas eu não posso garantir. Estou pensando numa coisa que eu vou tentar executar.”

CP: Sobre o teu último lançamento, “Um Novo Tom”, em parceria com o Péricles e AJULIACOSTA, o que tu buscou transmitir com essa releitura?

Rashid: “Essa é muito especial no disco. Eu gosto muito dela. É uma música, esteticamente falando da construção dela, que vai pro lado mais do blues e do soul, tem a participação do Péricles… O pessoal que gosta mais de um rap pesado não digeriu ela como eu gostaria que tivesse digerido pela ideia, pelo conteúdo, pela mensagem. E aí eu quis trazer uma roupagem mais rap para ela para que essas pessoas que não abraçaram consigam dar um novo tom.

E outro ponto é a minha curiosidade. Pensei “se eu fosse fazer ela mais pesada, de que forma eu faria?”. Essa música fala sobre essa relação de pessoas que tem uma origem humilde como a nossa e tem essa essa relação dual entre ganhar ou não dinheiro. É a relação de amor e ódio com pessoas que são pobres e as que tem dinheiro. É o amor pelo desejo, o ódio pela necessidade. Então, a gente tinha essas perspectivas e eu queria chamar mais alguém que acrescentasse uma nova perspectiva. Talvez se eu chamasse algum dos meus amigos para fazer, a gente ia ter uma perspectiva repetida. Mas e se a gente trouxesse uma mulher com a perspectiva dela da situação, né? Porque é diferente crescer num ambiente de periferia sendo homem e sendo mulher. São pontos de vista completamente diferentes. Aí veio a ideia de chamar a Júlia, que trouxe lindamente a visão dela e é uma pessoa que está acendendo a carreira e, consequentemente, acendendo financeiramente. E aí ela somou muito. Acho que a coisa de trazer a Júlia foi por esse ponto de vista enriquecedor assim.”

CP: Pegando como o gancho a tua fala sobre participação feminina. E o teu público é boa parte feminino e jovem, entre 25 e 35 anos. Quanto isso te afeta no processo criativo?

Rashid: “Não diria que me afeta no processo criativo. Eu acho que me afeta em outras coisas, né? Afeta meu comportamento. No que eu faço e como isso reverbera para essas pessoas. Isso é uma coisa que eu penso. Eu sei que o que eu falo tem peso, o que eu faço tenho peso. Onde eu estou, onde eu não estou, tudo isso tem um peso. E eu acho que é essa coisa do público, isso me afeta muito mais nisso. Especialmente pensando na parte feminina, no público feminino, é onde eu me me envolvo, com quem eu me envolvo, com quem eu apareço em fotos, de quem eu aperto a mão…Tudo transmite uma mensagem. Então, eu não posso dizer uma coisa na minha música e, de repente eu, posto uma foto com uma pessoa que a existência dela agride o direito das mulheres em algum sentido. É nesse quesito que eu penso. No sentido da criação, não necessariamente. Primeiro, porque acho que já por pensar nisso na vida já fica inata a minha opinião e as minhas convicções.

Mas, assim, eu não penso nisso na hora de criar, porque é muito delicado pensar nisso dessa forma. Se eu fosse pensar nisso seria muito fácil cair em armadilhas. Tanto de falar coisas superficiais ou de ser mais ou menos militante do que já sou ou de escorregar no discurso. As pessoas tendem a associar falsamente o público feminino a músicas românticas e o meu público não. O meu público não é assim. A minha primeira fila de shows sempre teve muitas mulheres cantando as músicas mais pesadas. Então, sabe, eu acho que se a gente parar para pensar nisso na hora de criar, a gente pode cometer esses deslizes que são comuns para todos e que não são realidade. Eu acho que meu meu público feminino tá aqui é tão forte hoje, principalmente pelo que eu venho fazendo até hoje. Acho que eu não devo mudar isso.”

CP: Como tu vê o rap na indústria da música, que tem recebido tanta influência digital?

Rashid: “Hoje, o tempo virou o maior artigo de luxo que a gente tem. É o tempo, a atenção. Então, a gente tá num momento que a gente tem a falsa sensação de diálogo. As redes sociais, elas meio promovem isso, como se houvesse um encontro e uma conversa. Mas a gente não tem lugares de conversa porque é simplesmente o lugar onde todo mundo fala. O lugar onde todo mundo fala não é um lugar de conversa, não é um lugar de diálogo, não existe troca real. Obviamente, é possível aprender muitas coisas para nas redes sociais, é possível aprender. Muita gente faz conteúdos maravilhosos e tal, mas não é um lugar de conversa. Isso é uma das razões também pelo qual o ato do pensar não é tão praticado porque a nossa cabeça tá ocupada o tempo inteiro. A gente tá cheio de iscas. Se você pegar o celular, você vai ser fisgado por alguma coisa. Quantas vezes a gente pega o celular para responder alguma coisa importante, você é fisgado por outra e por mais outra e de repente você ficou 40 minutos numa coisa que não era para você ter ficado.

Eu acho que o tempo e a atenção se tornaram os artigos de luxo e os artigos pelos quais as grandes empresas disputam. Isso faz com que você vire uma disputa. Nós estamos sendo disputados. É muita informação, e no meio das informações tem as fake news, tem a música… São mais de 1 milhão de músicas lançadas toda semana. E aí já tem a inteligência artificial desse meio. Desse 1 milhão, praticamente 34%, se não me engano, são músicas de inteligência artificial. Tudo é feito para o consumo e estão espremendo a nossa atenção até o bagaço. É muito difícil, hoje, você se negar a toda essa peça de entretenimento que tem no celular o tempo inteiro para você ficar em silêncio. E não existe não existe produção de pensamentos sem silêncio, sem quietude, sem ficar quieto um pouco, sem se distanciar das coisas. São vários e vários os artistas, os mestres da arte que quando as pessoas perguntam e falam "Qual é o segredo da sua criatividade?" e eles respondem: “Silêncio. Você se ouve? Ouve os seus barulhos?” E uma provocação que eu sempre trago é assim: "Qual foi a última vez que a gente teve uma ideia original?" Porque a gente tá sempre pensando, mas hoje a gente tá sempre pensando nas coisas que a gente viu nas redes sociais, nas coisas que provocaram a gente. E o algoritmo é muito inteligente, ele entrega exatamente aquilo que vai te fazer interagir ou vai te fazer pensar. A gente está sempre refletindo sobre as coisas dos outros. É o que fulano falou, a notícia que a gente viu… Não estou culpando as redes sociais mas, nessa era, o silêncio, você ficar sozinho, na sua solitude se tornou uma coisa muito rara e, devido a isso, a gente pensa pouco.

O rap, sim, forma grandes pensadores. Mas todo mundo tem suas dificuldades, mesmo com os grandes pensadores. Tenho certeza de que todas essas pessoas que são consideradas as grandes pensadoras no Brasil contemporâneo tiram esse tempo para elas, para pensar. O pensamento atual de que você está perdendo tempo tem um viés da lógica capitalista de que se você tivesse fazendo outra coisa seria mais produtivo. Então, parece que o tempo para pensar é um tempo perdido, mas o pensamento também é um trabalho. É trabalhar em si, é trabalhar no mundo, é trabalhar na sua obra. É o famoso “amolar o facão”. Você precisa amolar o seu facão, amolar a sua lâmina para que ela seja mais efetiva. Nos dias de hoje, isso é visto como perda de tempo. Você não deveria estar fazendo isso, você deveria estar produzindo mais, mas produzir mais para quem? Para o quê?

Inclusive, muitos de nós músicos embarcamos no pensamento e nos tornamos trabalhadores de aplicativo também porque ele vive em função de criar conteúdo para tal plataforma para poder ter os números. No momento, esse é o grande desafio. O Gilberto Gil falou uma coisa muito interessante. Ele disse que agora é a hora de desacelerar o progresso. A gente progrediu, agora é hora de desacelerar um pouco esse progresso e voltar a pensar um pouco na sociedade porque a gente não está tendo tempo nem de gerir os últimos progressos da humanidade. Então, tudo é sobre tempo, sobre parar, sobre pensar, sobre entender como o descanso é crucial para a saúde do corpo. Se a cabeça tiver bem, a gente consegue todos os pensamentos. Eu fico pensando como seriam os grandes pensadores hoje em dia…”

CP: Como estaria Leonardo da Vinci hoje em dia?

Rashid: “Exatamente. Como seria Leonardo da Vinci hoje em dia? Fica a reflexão: as grandes pessoas que mudaram a história da humanidade, de Platão a Sócrates… olha o que essas pessoas produziram. Quem serão as próximas pessoas desse tipo? Dessa estirpe da sociedade humana? Quem ‘a gente’ colocou nesse lugar são os bilionários. Acho que essa é uma provocação interessante para a gente entender como o pensamento e o tempo passam associados com a produtividade.”

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*Sob supervisão de Adriana Androvandi


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