O amor cabe numa fita gravada
Espetáculo “Trilhas Sonoras de Amor Perdidas” tem última apresentação neste domingo no Festival de Curitiba
Quem nos anos 70, 80 e até início dos 90 não se aventurou a gravar fitas temáticas ou com seleções musicais que representavam o estado de espírito e o sentimento em relação ao amor ou à época. A segunda parte da trilho Som & Fúria, iniciada pelo diretor Felipe Hirsch em 2000 com “A Vida é Cheia de Som & Fúria” teve pré-estreia nacional na noite deste sábado no Festival de Teatro de Curitiba. O espetáculo “Trilhas Sonoras de Amor Perdidas”, da Sutil Companhia, protagonizado por Guilherme Weber e Natália Lage terá sua última apresentação na mostra, neste domingo, 21h, no Teatro Bom Jesus.
Com três horas de duração em dois atos com 15 minutos de intervalo, a montagem é um passeio pelas canções que marcaram a geração das mixtapes, as fitas gravadas com algum motivo, tipo “Fita para dizer eu te quero” ou “Fita para ouvir na estrada”. A partir da história de amor entre o narrador e protagonista interpretado por Guilherme Weber e Soninho (Natália Lage) que tiveram um relacionamento durante cinco anos, entre 1989 e 1994, alimentado pela música e pelas mixtapes, a história se desenvolve com um rosário de referências musicais como Husker Du, Cure, The Smiths, Lloyd Cole, Sonic Youth, T-Rex, Gladys Knight , Jesus & Mary Chain, Velvet Underground, The Replacements, Pretenders e literárias como J.D. Salinger e Arthur Rimbaud. Sobre o Velvet e Lou Reed, foi a música com a qual os dois se conheceram e trocaram as primeiras falas. Ele grava uma fita com as suas músicas favoritas para ela e aí tudo começa.
E o prazer está exatamente no espectador embarcar na viagem amorosa e musical proposta por Hirsch e os protagonistas. A trama tem um quê de trágico, com a morte dela, que é anunciada desde a metade da história. Se passa em Curitiba e São Paulo e tem uma frase lapidar após a outra e idéias mais ainda, como quando o protagonista acha que o mundo sofreu transformações radicais como a queda do Muro de Berlim, invasões dos Estados Unidos a países do Oriente e terrorismo por causa do disco “Desintegration”, do The Cure.
A questão das mixtapes terem virado CDs e hoje em dia playlists em celulares, Ipods, Ipads e notebooks é discutida pelo personagem nos dias atuais, utilizando o recurso de falar no microfone, como o programa de rádio que ele apresenta que iniciou sobre mixtapes, com cartas e fitas mandadas por ouvintes. Ele também assina uma coluna em um jornal sobre o assunto.
A aventura dele é resgatar trilhas sonoras de amor perdidas, resgatá-las do limbo, mas como ele mesmo diz: “trilhas sonoras são trilhas sonoras não são espelhos”, analisando a relação das trilhas com a vida. Outra frase resume um pouco da ideologia do espetáculo: “Se estamos falando de romance, as fitas gravadas são trilhas sonoras de amor perdidas. Tentar controlar o compartilhar música é como controlar o compartilhar uma paixão”.
Um espetáculo para ser visto por quem ama ou já amou alguém, para quem ama a música, já gravou fitas para alguém ou para quem gosta de teatro bem feito. Aliás a Sutil Cia. de Teatro estará em Porto Alegre nos dias 14 e 15 de maio para apresentar outro espetáculo: “Não sobre o Amor”, na programação do Palco Giratório Sesc Porto Alegre.