Arte & Agenda

O calor humano transposto para a virtualidade em "Pelelingua Sedentobeijo"

Eduardo Severino Cia. de Dança aborda o tema em sua nova criação, que estreia hoje, às 23h pelo Youtube. Interessados em assistir devem enviar email para a produção.

Intérprete-criador Gabriel Martins em cena do espetáculo de dança contemporânea
Intérprete-criador Gabriel Martins em cena do espetáculo de dança contemporânea Foto : Lu Trevisan

O que a impossibilidade do beijo suscita no corpo? Esta foi a provocação que o coreógrafo e bailarino Eduardo Severino fez a sete bailarinos, isolados há 18 meses por conta da pandemia, para a montagem de “Pelelingua Sedentobeijo”. O espetáculo nasce de mais uma inquietação da Eduardo Severino Cia. de Dança em investigar comportamentos sociais: o ato de beijar, o desejo e o calor humano. A temporada começa hoje e segue até 5 de setembro, com apresentações de sextas a domingos, às 23h. Interessados em assistir devem enviar e-mail para pelelinguasedentobeijo@gmail.com.

Contemplado com o Fumproarte 2016, inicialmente o projeto intitulado "Beijo" consistia em uma pesquisa sobre o beijo e o ato de beijar. Em 2020 chegou o financiamento, em pleno surto de Covid-19, quando precisou ser reformulado para o universo virtual. “Não sabíamos direito o que iria acontecer, mas tínhamos certeza de que o contato não seria permitido. Daí pensamos muito e chegamos a esta provocação, do que a impossibilidade do beijo provoca no corpo. Pesquisamos, cada um na sua casa, as ideias de fetiches, da boca lânguida ou voraz, que precisa do outro, do coletivo pra continuar existindo”, conta Eduardo sobre sua nova criação. 

“Corpos sedentos de pele, de língua e de toque e um vírus invisível, sem precedentes, que gera desconfiança nas relações. Todos os sentimentos extravasados no mundo virtual. Esses foram os propulsores da nossa proposta coreográfica, em que os movimentos gerados pelos estímulos internos e externos, as sensações do desejo, a carência, a falta do conforto do outro, a desconfiança, as distâncias, as ausências, as presenças diáfanas, a impotência e a nossa fragilidade construíram o espetáculo”, acrescenta. Nesta versão, Gabriel Martins, Daniel Aires, Eduardo Severino, Luciano Tavares, Marco Fillipin, Mônica Dantas, Tatiana da Rosa e Viviane Gawazee trazem à cena a sensualidade, o desejo e o erotismo na solitude. Os artistas partiram da ideia do desejo pelo calor e o olhar do outro, em um tempo atípico, norteado pela pandemia, cujo ápice ocorreu em 2020. “Esta solitude de ter que ficar em casa e se conectar consigo mesmo, mas perdendo contato com o outro e o desejo pelo outro. O real desejo continua, a questão é que não se pode entrar em contato direto, por conta de um vírus infernal que estava e está aí e criou, de certa maneira, uma desconfiança”, explica o coreógrafo. 

Rodrigo Shalako assina o cenário, que se desdobra em oito espaços e mostram as casas adaptadas dos criadores-intérpretes, com sua intimidade. Uma maçã pendurada e acrílicos simulando a tela de um celular são alguns aspectos da ambientação; além da luz de luminárias existentes nas residências. No primeiro espetáculo on-line que dirigiu, após a experiência como assistente de coreografia em “Levanta e Sacode a Poeira”, de Eva Schul, Eduardo amarrou e organizou as cenas e deu material aos artistas, que colaboraram com ideias. Em sua opinião, o resultado foi satisfatório: “tentamos ser sensíveis e delicados, lidando com sutileza”. No dia 8 de setembro, está prevista a estreia do clipe com todos os artistas, dirigido por Alex Sernambi e trilha de Adriana Deffenti.

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