E se quase tudo o que ainda acreditamos sobre a evolução humana se baseasse em informações erradas? O roteiro que aprendemos e que ainda hoje persiste é o de que durante a maior parte da pré-história, nós, humanos, vivemos em pequenos bandos igualitários de caçadores-coletores e foi somente com a revolução agrícola que adotamos formas mais amplas de organização social que resultaram em comunidades hierárquicas complexas. O arqueólogo David Wengrow, que esteve em Porto Alegre no início do mês para o Fronteiras do Pensamento, contesta essa afirmação e traz uma série de descobertas recentes para embasar sua interpretação da evolução humana. Junto com o antropólogo David Graeber, Wengrow escreveu “O Despertar de Tudo: uma nova história da humanidade”, lançado no Brasil pela Companhia das Letras e um sucesso imediato de vendas. Graeber morreu em setembro de 2020, semanas antes do lançamento da obra.
Em sua fala no Fronteiras, Wengrow trouxe argumentos para defender que muito do que acreditamos ser nossa pré-história é, na verdade, mito, nosso mito de origem. Nada mais é do que história que “inventaram” para explicar a ascensão da civilização e do Estado. E, como é característica dos mitos de origem, esta narrativa exerce grande poder sobre como nós nos enxergamos hoje.
Ao longo das quase 700 páginas de “O Despertar de Tudo”, alguns mitos vão sendo contestados, uns mais polêmicos que outros. Os autores fazem uma dura (e irônica) crítica à explicação evolucionista. A chamada “revolução agrícola”, por exemplo, simplesmente não aconteceu. “Uma revolução de 3 mil anos?”, pergunta ironicamente David Wengrow. A mudança da prática de coleta de alimentos para a da agricultura foi lenta e irregular e muito disso era uma horticultura em escala perfeitamente compatível com estruturas sociais planas. Graeber e Wengrow contestam a grande narrativa que pressupõe que à medida que as sociedades ficam maiores, mais complexas, ricas e “civilizadas”, tornam-se inevitavelmente menos igualitárias. Essa, por sua vez, é a linha de pensamento seguida por autores como Yuval Noah Harari (“Sapiens”) e Jared Diamond (“Armas, Germes e Aço”), para os quais a emergência das primeiras cidades e, por fim, dos Estados, exigiu hierarquias mais acentuadas. Essa organização determinaria que igualdade e liberdade têm de ser trocadas pelo progresso. Ambos são diretamente criticados em “O Despertar de Tudo”, cujos autores sustentam que a agência humana é fundamental no que se refere a modelos de sociedade.
Para eles, a ideia de que violência e desigualdade são inevitáveis é simplesmente falsa e não existe nada na Arqueologia e na Antropologia que corrobore essa afirmação. Ao contrário, as descobertas mais recentes apontam que as sociedades sempre foram muito diversas e híbridas, hierárquicas e não hierárquicas, iguais em alguns aspectos e não em outros. Alguns povos, como os cherokee, habitantes de uma área que hoje é território dos Estados Unidos, ou os inuit, espalhados por Canadá, Estados Unidos e Groenlândia, alternavam entre o autoritarismo e a democracia. No Brasil, os nambiquaras dividiam o tempo entre as atividades agrícolas e forrageiras. Tortura, guerra, crueldade e despotismo eram uma característica comum de muitas sociedades, tal como o são da nossa. Mas também havia sociedades organizadas em sistemas complexos e não hierárquicos de ajuda mútua.
Seguindo a derrubada dos mitos, eles reservam crítica particular à suposição de que o “selvagem” era tão ingênuo quanto nobre (a imagem do bom selvagem). Eles citam textos de missionários jesuítas do século XVII que ficaram perplexos ao descobrir a perspicácia intelectual do povo nativo norte-americano wendat, como em um trecho que diz: “praticamente todos eles mostram mais inteligência em seus afazeres, falas, cortesias, contatos, brincadeiras e sutilezas do que os mais sagazes cidadãos e mercadores na França”. Estas competências e hábitos, sugerem Graeber e Wengrow, na verdade, tornaram os chamados povos primitivos mais verdadeiramente “animais políticos” do que somos agora.
Aliás, aqui entra uma das principais polêmicas levantadas pelo livro. Graeber e Wengrow propõem que as noções de liberdade e igualdade do mundo Ocidental atual teriam surgido no pensamento político europeu a partir do contato e do diálogo com a crítica indígena à sociedade europeia. De fato, eles sustentam que o pensamento indígena americano foi a base do iluminismo europeu. “Para os públicos europeus, a crítica indígena foi como um choque no sistema, revelando possibilidades de emancipação humana que, depois de vindas à tona, dificilmente poderiam ser ignoradas”, ressaltam no livro. Para os dois autores, os valores do mundo ocidental hoje são provavelmente mais próximos daqueles adotados por alguns povos indígenas das Américas do século XVI do que aqueles dos europeus da mesma época. Não é de se espantar, com essas afirmações, que alguns pensadores europeus se sintam atacados com o livro “O Despertar de Tudo”.
Ao reescrever o passado, mostrando o quão variado e incompreensível tem sido o desenvolvimento humano, Graeber e Wengrow esperam também poder fornecer inspiração política para o presente, para imaginar futuros possíveis.
Os autores
David Graeber foi professor de Antropologia na London School of Economics. Um dos mais renomados intelectuais e ativistas da sua geração, morreu aos 59 anos, em setembro de 2020, meses antes do lançamento de “O Despertar de Tudo: uma nova história da humanidade”. É autor de vários livros, entre os quais “Dívida: os primeiros 5.000 anos ” e “Um Projeto de Democracia”.
David Wengrow é professor de Arqueologia Comparada no Instituto de Arqueologia da University College London e foi professor visitante na Universidade de Nova Iorque. É autor de livros como “What Makes Civilization?”. Ele hoje desenvolve pesquisas arqueológicas de campo na África e no Oriente Médio.