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“O Diabo Veste Prada 2” é o principal destaque entre as estreias nas telonas

Crítico de cinema Marcos Santuario comenta, em poucos minutos, as produções que podem ser conferidas, a partir desta quinta-feira, dia 30 de abril

Crítico de cinema Marcos Santuario comenta as produções
Crítico de cinema Marcos Santuario comenta as produções Foto : YouTube / Reprodução / CP

Poucos filmes ousam voltar. Menos ainda retornam com a promessa de cutucar feridas que nunca cicatrizaram. Aquelas abertas entre ambição e identidade, sucesso e esgotamento, poder e silêncio. “O Diabo Veste Prada 2”, de David Frankel, com estreia hoje nos cinemas, surge como um espelho tardio, talvez mais cruel, talvez mais honesto, de uma indústria que mudou. E de personagens que, inevitavelmente, também mudaram.

Quando “O Diabo Veste Prada” foi publicado em 2003, poucos poderiam prever que aquela narrativa literária afiada sobre bastidores da moda se transformaria em um dos pilares da cultura pop contemporânea. O filme de 2006, também dirigido por Frankel e estrelado por Meryl Streep e Anne Hathaway, não apenas consolidou personagens icônicos. Ele redefiniu o modo como o cinema retrata o poder feminino, a tirania corporativa e o preço da ambição.

Agora, quase duas décadas depois, a continuação não tem o luxo da ingenuidade. O mundo não é mais o mesmo. O jornalismo de moda, outrora soberano, sangra diante do digital. A autoridade editorial foi corroída por algoritmos, influenciadores e uma economia de atenção brutal. E é justamente nesse cenário que a intensa personagem Miranda Priestly retorna. Agora ela surge na telona não como uma figura intocável, mas como alguém que encara, talvez pela primeira vez, a possibilidade da irrelevância.

Miranda Priestly sempre foi mais do que uma chefe exigente. Ela é a personificação de um sistema. Fria, precisa, quase mitológica. Mas os indícios do novo filme sugerem fissuras. Gestos calculados para reafirmar hierarquia onde sua autoridade já não é garantida. Enquanto isso, Andy Sachs retorna. De espectadora a agente. A jovem, que foi moldada, e quase destruída, por Miranda agora pode ocupar espaço de influência.

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Isso não é apenas evolução narrativa. É um comentário direto sobre gerações, sobre herança profissional e sobre o ciclo inevitável de reprodução de estruturas de poder. E talvez a tensão mais deliciosa esteja em Emily Charlton. De assistente obcecada à executiva de luxo, sua ascensão promete inverter dinâmicas e colocar frente a frente duas visões de mundo. Uma delas é a da tradição editorial. A outra é o império corporativo da moda. Não é apenas rivalidade, mas um choque de eras.

Mas seria um erro reduzir o impacto de “O Diabo Veste Prada 2” à sua trama. Sua verdadeira importância está no que ele representa para o cinema e para a arte. É a prova de que histórias originadas na literatura continuam a reverberar, evoluir e provocar. A obra de Lauren Weisberger gerou filme de sucesso e criou um universo interpretativo que segue sendo relido.

E há, claro, as atuações, coração pulsante da engrenagem. Meryl Streep retorna com o peso de quem não apenas interpreta Miranda, mas a redefine. Anne Hathaway carrega a responsabilidade de mostrar maturidade sem perder a essência da personagem. E Emily Blunt surge como uma possível força disruptiva, alguém que, definitivamente, aprendeu o jogo e agora joga para tentar vencer. E ainda há surpresas, da moda e do showbiz.

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