Arte & Agenda

“O esquecimento também é o nosso veneno”, diz Andrea Beltrão em entrevista sobre “Lady Tempestade”

A jornada da advogada Mércia Albuquerque, que defendeu presos políticos nos tempos sombrios da ditadura militar, é o tema do monólogo com temporada em Porto Alegre de 1° a 4 de maio

Andrea Beltrão chega a Porto Alegre com o espetáculo "Lady Tempestade"
Andrea Beltrão chega a Porto Alegre com o espetáculo "Lady Tempestade" Foto : Felipe Ovelha / Divulgação / CP

Inúmeras histórias são apagadas e muitas vezes cabe à arte jogar luz sobre essas vidas. A jornada de Mércia Albuquerque é um desses casos. A advogada que defendeu presos políticos nos tempos mais sombrios da ditadura militar e teve seus diários publicados em 2023, pela editora Potiguariana, é tema da peça “Lady Tempestade”, monólogo com Andrea Beltrão, escrito por Silvia Gomez e dirigido por Yara de Novaes. A montagem fará uma pequena temporada em Porto Alegre, primeira cidade da turnê brasileira, nos dias 1° a 4 de maio, com sessões na quinta, sexta e sábado, às 20h, e, no domingo, às 18h, no palco do recém inaugurado Teatro Simões Lopes Neto (Riachuelo, 1089). Os ingressos estão à venda no site do Theatro São Pedro.

“É uma alegria enorme vocês inaugurando aí na cidade depois de tantos anos, com a luta da Dona Eva Sopher. E agora vocês concluindo a obra dela, um teatro tão grande, tão bonito, cheio de coisas, cheio de possibilidades que vai atender as várias expressões artísticas e junto com São Pedro”, comemora a atriz Andrea Beltrão.

A montagem, que conta com três indicações ao Prêmio Shell (atriz, direção e dramaturgia), traz a personagem A. que recebe os diários de Mércia e fica impactada com o testemunho pela busca de justiça e com a narrativa repleta de violência e coragem. Ela encara o dilema de se envolver com aquela história, mas acaba mergulhando nela. Aos poucos, vai revelando uma personagem feminina importante.

“O espetáculo parte de um diário real, concreto, escrito por uma mulher que viveu tudo aquilo. E que a gente sabe que é verdade. Porque os nomes estão lá, os endereços, o horário, a hora que torturou, a hora que levantou, a hora que salvou, a hora que fugiu, está tudo dito”, explica.

A ditadura militar no Brasil sempre foi um tema discutido no país, mas recentemente ganhou novos contornos com o filme ganhador do Oscar, “Ainda Estou Aqui”, que conta a história de outra mulher, Eunice Paiva, também desconhecida por muitos brasileiros antes do filme. “O esquecimento é um de certa maneira uma proteção para a gente algumas vezes, mas na mesma medida em que o esquecimento pode nos proteger um pouco na dose errada o esquecimento também é o nosso veneno”, reflete Andrea. E faz um apelo “as coisas terríveis, trágicas, desumanas, injustas, isso a gente tem que combinar nós todos da humanidade que a gente não pode esquecer. Porque senão elas se repetem. Elas voltam”.

Para Andrea, é importante apresentar ao público tudo o que Mércia representa, com toda a sua luta por justiça. “Muito legal contar a história dessa mulher que para mim era uma absoluta desconhecida por minha pela minha ignorância, pela nossa ignorância. Mas agora ela vive. No fim da peça, tem uma frase bonita, que a Silvia Gomez escreveu, que é: ‘E agora o sol alto vai brilhar ficar bem forte nos olhos dela e ela vai se sentir viva, muito viva’”, comenta.

No Rio de Janeiro, onde estreou, a resposta do público surpreendeu a equipe. Andrea conta que pessoas de todos os cantos do Brasil foram assistir à peça por conhecerem Mércia de alguma forma. “Teve uma criança, uma menininha, acho que ela tinha uns 10 aninhos e aí eu sentei do lado dela, falei: ‘Você não é muito jovem para ver essa peça, essa peça é triste’. Aí ela falou assim: ‘Não’. Eu falei: ‘Você sabe sobre o que é essa peça?’, ela falou: ‘Sei’. Aí, eu fiquei olhando para ela, ela disse assim: ‘Essa peça conta a história do meu avô. O meu avô passou tudo isso aí. É a história real e a Mércia que salvou o meu avô’”, lembra a atriz sobre as sessões.

O título “Lady Tempestade” foi retirado de uma expressão que a própria advogada utilizou para se definir, ao se comparar com a mãe: “a minha mãe é bonança. Eu não, eu sou outro negócio, eu sou Lady Tempestade”, o que parece caber como uma luva para uma mulher tão corajosa, que enfrentou a prisão por 12 vezes.

Além do teatro, o texto da dramaturga Silva Fomez foi publicado em livro pela Editora Cobogó. Além do texto integral da peça, a edição inclui apresentação da autora e textos de Yara de Novaes, Andrea Beltrão e Samarone Lima. Também chegará em breve em formato de filme, com gravações no Teatro Poeira. “Quando a peça acaba, ela acabou mesmo. Pelo menos aquela montagem, você pode pegar um texto e remontar mil vezes, mas aquela montagem que acabou, ela termina ali. E o cinema tem essa coisa maravilhosa que ele fica meio eternizado. Então, tem esse lado que é bacana fazer uma peça e filmar essa peça”, aponta.

Mércia Lutou Por Justiça

No ano em que a ditadura militar no Brasil completa 60 anos, Mércia Albuquerque, morta em 29 de janeiro de 2003, vítima de câncer, é lembrada na peça “Lady Tempestade”. Considerada a maior advogada nordestina de presos políticos da ditadura militar de 1964, estima-se que Mércia tenha defendido mais de 500 pessoas, sendo cerca de 10% do Rio Grande do Norte. O acervo, que atesta este feito, contém, além do diário, cartas e processos.

O livro "Diários de Mércia Albuquerque: 1973-1974" (editora Potiguariana), publicado em meados de 2023, inclui relatos e situações descritas pela militante. Sempre com uma sensibilidade, que beira ao poetismo, narra situação extremamente violentas, como a repressão, censura, torturas e o contexto histórico. Pouca vezes relata coisas pessoais ou escreve sobre si mesma.

Recém-formada em direito, em 1964, presenciou uma cena brutal. Mércia vê o militante Gregório Bezerra ser torturado no meio da rua. Chegou em casa decidia e comunica ao marido que iria defender aquele homem e quem mais precisasse. Na época, ser um advogado de presos políticos era uma escolha perigosa, além disso ser uma mulher que enfrenta diversos preconceitos é um feito que impressiona.

Na vida da advogada não faltam histórias impactantes. Mércia foi presa 12 vezes — em uma delas, estava sozinha em casa com seu bebê, e mandou uma mensagem em uma garrafa, presa numa cordinha, para a vizinha de baixo, pedindo para ela cuidar da criança enquanto ela não fosse liberada pelos "gafanhotos" (uma das alcunhas que usava para chamar os militares).

Com toda sua força, defendeu até não poder mais as vítimas do regime autoritário. Anos depois, Mércia se tornou ouvidora na Secretaria de Justiça de Pernambuco, no cargo teve o importante papel de ouvir depoimentos de testemunhas para indenização de sobreviventes.

Destacou-se por sua atuação em prol de políticas públicas inclusivas e pela defesa de grupos historicamente marginalizados.

Em 2024, a Ordem dos Advogados do Brasil de Pernambuco a homenageou, em reconhecimento à sua contribuição aos direitos humanos e instituiu a "Medalha do Mérito de Direitos Humanos Advogada Mércia Albuquerque".

Veja Também

Guia de Programação: a grade dos canais da TV aberta desta quarta-feira, dia 17 de junho de 2026

As informações são repassadas pelas emissoras de televisão e podem sofrer alteração sem aviso prévio