O ano de 2022 será o nosso futuro entre pandemias. Um viajante no tempo, Pedro Roiter (Seu Jorge) volta a este ano e acaba sendo internado para tratamento com a psiquiatra Elisa Amaral (Mel Lisboa). Nas mãos deles, o destino do mundo. A série “Paciente 63” estreia na quarta-feira, 22 de julho, no Spotify. É para ser ficção científica, mas poderia ser verdade. “Se me dissessem, em 2019, que nós teríamos uma pandemia que mataria milhões, que ficaríamos dois anos em distanciamento, com quase tudo fechado, usando máscaras, iríamos achar que é ficção. Um dos trunfos da série é tocar neste ponto”, avaliza Mel Lisboa.
Com roteiro original de Julio Rojas, a série tem tradução do espanhol, adaptação e direção de voz de Gustavo Kurlat, com trilha de Mowat. Ao ouvir os primeiros episódios, a sensação é de volta ao tempo das radionovelas na metade do século XX, só que é outra coisa. Conforme Kurlat, a diferença das dramaturgias de TV e cinema é que tudo deve estar impresso na voz. “A tarefa da direção é orientar essas nuances para conseguir o resultado desejado, que está na cabeça do diretor que ‘interpreta’ o texto escrito. A voz sugere o gesto, a distância ou a proximidade, a intimidade ou a estranheza dos personagens. As nuances expressivas da voz devem carregar essas sensações. O corpo do ator deve ser orientado para produzir pela voz falada a percepção do público”, afirma.
Para Seu Jorge, a experiência de atuar na áudio série foi instrumentalizante. “Traz muitas ferramentas para o ator. A gente coloca o microfone de lapela e estuda que voz caberá naquele momento, a questão técnica, o respirar, a pausa, não pode fazer o puff, puff”, ressalta. “Assim como o ouvinte precisa imaginar cores, cheiros e ambientes da série, ator precisa trabalhar as nuances, criar este ambiente com a voz”, completa Mel Lisboa.
Uma amarração do roteiro e da adaptação de Kurlat é que Pedro nasceu em Porto Alegre, morava no bairro Menino Deus, filho de um casal formado por uma médica e um dono de uma oficina de bicicletas. O personagem não tem sotaque gaúcho. “A realidade original era chilena. Pedro Roiter era nascido no México, mas a trama, que se passa em Santiago, seu sotaque, graças a tecnologias do futuro, poderia soar como o sotaque do lugar onde ele estivesse”, detalha Kurlat. Ele observa que na adaptação a brincadeira foi que ele era nascido em Porto Alegre, com a ação se desenvolvendo em São Paulo e ainda dizendo que na verdade era um carioca morando em SP. “Essa salada bem temperada contribuiu para que os mistérios do que seria realmente ‘a verdade’ da história fossem aprofundados ainda mais”, frisa. Seu Jorge lembra que a sua contribuição foi fazer com que o personagem fosse negro, pois a imagem dele como ator da série é esta. “A gente está falando de Brasil, da miscigenação, de um personagem nascido em um lugar com outra voz e outro sotaque”, diz. Mel Lisboa, que estuda academicamente o tema tradução enfatiza que a variação de sotaques e acentos é necessária também na composição destes personagens. “Dificilmente se pensa no processo tradutório, mas acredito que na série foi pensado o lado estrangeiro do viajante no tempo, entre outros aspectos”, finaliza.
O futuro entre as pandemias em 2022
Áudio série de ficção científica do Spotify trata de viagem no tempo com Mel Lisboa e Seu Jorge